UM MUNDO VIVIDO

Por: Angela Gasparetto

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Acordei e um raio de luz feriu-me os olhos.
O mundo que eu conhecia havia acabado.
Eu estava em outro mais puro, mais antigo, idealizado e feliz.

Caminhei pelas ruas vazias e ensolaradas de sábado à tarde, voltava das aulas de datilografia e o sentimento de dever cumprido dava-me uma felicidade ímpar.
 
Neste outro mundo, também voltava da escola, era final de ano, havia fechado todas as notas, trazia nos bolsos revistas em quadrinhos para ler nas férias e corria feito louca pelos trilhos cortando os caminhos.  Ia alucinada para chegar em casa, jogar os cadernos de lado e aproveitar aquelas férias tão esperadas.
 
Neste novo mundo, também caminhei por aquela cidade do final dos anos 60, andei pelas ruas de paralelepípedos, abri o portãozinho de madeira da casa de minha avó Chica, olhei seu fogão à lenha e fiquei extática assistindo ao vento balançar a sua cortina de fitas coloridas.
 
Entrei no quarto da minha tia Maria, sentei na sua penteadeira cheia de maquiagens, que era o meu deslumbre e de minha irmã, escovei os cabelos com sua escova, remexi nos seus perfumes e vi o reflexo do meu sorriso peralta refletido no espelho.
 
Na garupa da bicicleta do meu tio, o vento despenteava meus cabelos e alegria pulsava o coração; lembro-me que comia um doce e sujei sua camisa quando segurei desajeitadamente na curva da rua mais próxima.
Ele havia comprado umas “botinhas” novas, especialmente encomendadas para mim, porque as que eu usava estavam vergonhosamente gastas.
 
Neste novo mundo, subíamos todos  a pé a Av.  Major Nicácio para visitar minha avó e íamos conversando, rindo, tendo como testemunha o céu negro pontilhado de estrelas.
 
Na volta, eu dormi e lembro-me que meu pai me colocou aos ombros. Lembro-me também que nesta hora sorri de felicidade, mesmo dormindo.
 
Entrei depois em nossa casa comprada à duras penas e estávamos todos sentados à mesa em nossos almoços de domingos, ríamos e conversávamos.
 
Depois em uma mesa de Natal, ríamos mais ainda, comíamos, havíamos trocado os presentes e minha mãe era a estrela maior. Nunca foi tão feliz.
 
Caminhei neste mundo também em uma praia que sonhei desde menina conhecer. O mar era o mesmo. As ondas iguais. Naquele dia voltei a ser menina. Chorei neste dia, misto de alegria e tristeza.
 
Era noite de final de dezembro, a brisa morna, o céu pontilhado de fogos de artifícios. Estávamos de branco e caminhamos pelo estacionamento apenas com uma garrafa de champanhe. Ríamos os dois. Tudo estava bem. Nada de ruim nos aconteceria.
 
Depois, estávamos em uma praia. Era meia-noite. Estávamos sobrevoando um paraíso.
Uma música começou a tocar ao fundo. Dormi. Para acordar neste mundo real. 
 
Neste mundo que cabe somente a mim fazê-lo inesquecível a cada dia que viver. 

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