Lições de dor

Por: Isabel Fogaça

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Não há maneira de prever quando será o dia mais triste de sua vida. Você desperta num sábado de manhã, abre a janela para que o sol sinta-se convidado a entrar, você coa o café, e coloca seu vestido que mais parece um quadro que Picasso pintou em estado de felicidade. Tudo muito habitual, então seu telefone toca e começa o dia mais triste da sua vida, comigo foi assim. Não havia maneira de prever como seria, ele apenas aconteceu como uma barata que sai do ralo mesmo que a casa esteja limpa. Demorei anos para entender que eu não precisava me sentir culpada e foi neste momento que aprendi as lições mais essenciais para continuar vivendo após o dia mais triste de toda a minha vida.

A primeira lição é que não temos controle de absolutamente nada. Seus planos nunca acontecerão da forma como você pensa, mesmo que insista em colocar a semana na agenda, mesmo que faça a lista do mercado, que pague as contas em dia, e que trace um roteiro para uma discussão com seu companheiro. Então, o compromisso da agenda é desmarcado e você não teve controle, não há congelados no mercado, e agora o que farei para o almoço? Além disso, a pessoa com quem você planejava brigar fugiu do roteiro da discussão, o que falar agora? Vive bem aquele que sabe lidar com os imprevistos.
 
Há um gancho entre a primeira e a segunda lição, afinal todo o tempo é agora. Somos envolvidos por uma capa frágil e estamos praticamente jogados ao acaso do universo. Nossos hábitos, nossa cultura familiar, nosso trabalho são mecanismos que nos fazem esquecer de toda a verdade: não somos nada perto da dimensão do oceano, perto do tamanho da Terra, da grandeza do céu, da Via Láctea, do universo.
 
A terceira lição é: aceite que você não é nada, então você terá tudo. Permita-se respeitar todos os seres da Terra, desde seus amigos até seus inimigos, desde seu cachorro que insiste em pegar a bolinha até os bichos não domesticáveis, então haverá harmonia, porque o mundo não é exclusivamente do ser humano. Trave respeito com todos os seres que aqui habitam. Além disso, nunca “pague com a mesma moeda”. Se Fulana disse que você não tem caráter, já sabemos que isso diz mais sobre Fulana do que sobre você. Não seja como Fulana, apenas cale-se, junte as mãos ao peito, e peça que o ódio se torne amor, a você e a ela. 
 
A quarta lição vale ouro: seja paciente. Todas as coisas do mundo tem um tempo durável, não são apenas os alimentos industrializados que possuem data de validade. A dor e a felicidade são estágios passageiros. Apenas aceite aquilo que a vida lhe oferece, Manoel de Barros costumava dizer que ninguém cresce sendo feliz, a dor é potencializadora, pense em quando você se machuca, sua pele forma uma casquinha, dias depois uma cicatriz, o corpo é uma máquina magnifica e perfeita, e, além disso, o ser humano tem um poder incrível de regeneração, use isso com as suas emoções. 
 
Quinta lição: ninguém é como você é. Não planeje ter o corpo de Gisele ou a fortuna do Bill Gates. Só você pode fazer coisas por você, então pense grande, não admita que te julguem, que te diminuam, saiba do seu tamanho, e do espaço que pode ocupar, mas nunca se comparando aos outros. Além disso, não carregue um peso que não seja seu, sua carga já é pesada demais, mas não use isso como desculpa para ser um egoísta.
 
A última lição eu venho aprendendo desde que meu pai me ligou para contar sobre a morte da minha tia, a joia mais preciosa desse mundo. Sua ausência doeu insuportavelmente desde que sua alma alçou voo da Terra. Pensei que nunca mais a veria, pensei que nunca mais fosse enxergar seu sorriso, nem seu cabelo cor de girassol, mas então compreendi que o mundo não é feito apenas das coisas que podemos ver, às vezes precisamos apenas sentir. 
Tia, meu raio de luz, obrigada por me fazer crescer na dor.

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