Muito mais que uma agenda

Por: Sônia Machiavelli

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Calendário, agenda. Gosto do som dessas palavras de origem tão antiga, de seus  significados temporais, dos desdobramentos em objetos físicos que estetas conseguem às vezes transformar em obra de arte.

Calendário veio do grego kalein, chamar em voz alta, convocar. Em latim transformou-se em calendae, o primeiro dia do mês entre romanos: nesta data, uma autoridade informava ao povo quais seriam os festivais e dias sagrados a serem observados. Chegou ao português e outras línguas latinas  com o sentido genérico de marcação de meses e dias do ano. 
 
Agenda também nos vem do latim.  É forma feminina de agendus, gerúndio do verbo agere, colocar  em movimento. Como tal caminhou  ao longo do tempo adquirindo amplos sentidos. Hoje pode ser  programa que contém conjunto de temas ordenados; lista de atividades para determinado período; rol de temas a serem discutidos durante reunião. Ou um tipo de caderno individual, com o calendário do ano, espaço para marcar os compromissos de cada dia, mais lista de contatos telefônicos e endereços. Resumindo ao essencial, agenda é espaço para anotar o que não deve ser esquecido.
 
Foi uma deste tipo que ganhei neste  2017 de Gisele Abrahão Novelino Melo, Diretora Administrativa da Fundação Educandário Pestalozzi –Unidade1. Acompanhava o presente uma correspondência que deixava entrever o cuidadoso  trabalho subjacente.  Muito mais que páginas para registrar compromissos, é uma obra de arte. Diz Gisele: “Esse ano, preparamos  uma agenda que nos “transporta” a uma Franca Antiga, através das belíssimas obras do pintor francano Pedro Schirato e, ao mesmo tempo, deparamo-nos com o cenário atual, muitíssimo bem retratado nas fotografias do nosso professor e fotógrafo, Daniel Montagnini”. A página de rosto informa sobre o que vai se encontrar  a cada mês. Transcrevo:
 
“Para celebrar os 193 anos de nossa cidade, convidamos o artista plástico francano Pedro Paulo Schirato Neto para ilustrar a nossa agenda com as suas obras, em óleo sobre tela, de Franca Antiga. Pedro Schirato nasceu em Franca aos 03 de outubro de 1938. Com seu pai, Luiz  Schirato, saudoso e renomado pintor francano, Pedro aprendeu as primeiras pinceladas. Desde tenra idade, já demonstrava uma habilidade muito grande para a pintura, que foi sendo aperfeiçoada a cada dia. Pedro é versátil em relação aos motivos que retrata em suas telas. Casario, paisagens, marinas, flores e natureza morta estão impressos em suas mais de 4 mil telas. Possui várias de suas obras premiadas em salões de arte, e suas pinturas são conhecidas nacional e internacionalmente. Nesta agenda, você confere algumas de sua pinturas de Franca Antiga. O destaque vai para o magnífico e imponente Hotel Francano que, infelizmente, foi demolido e no seu lugar construído o prédio do Banco Itaú, no centro da cidade. Você terá a oportunidade  de observar vários locais de Franca no passado pintados pelas mãos hábeis do artista e compará-las aos espaços na atualidade, pois nosso professor e fotógrafo Daniel Montagnini foi a todos os locais e fotografou-os. Esperamos que goste!”
 
Impossível não gostar de um presente como este. Ilustrada  por dois artistas, um das telas, outro das fotos, ambos das imagens, a agenda traz para o francano desta segunda década do século XXI paisagens urbanas justapostas, passado e  presente, sugerindo um itinerário que coteja dois tempos e revela muitas surpresas, até aos olhos dos mais  velhos, dos que viram a cidade se expandir nos últimos cinquenta anos, como é o meu caso.
 
 Ignorava, por exemplo, que a fachada da matriz do Magazine Luiza esconde nas dobras do tempo a original agência do Banco do Brasil de nossa cidade. Jamais imaginaria a  primeva Igreja de Santo Antônio entre árvores, num descampado. Não fazia ideia de que o grande casarão de telhas coloniais, que abrigou a primeira Casa Hygino  Caleiro e depois o Cine São Luiz, é antepassado da atual Igreja Universal da Graça de Deus. O que dizer do trecho da Rua Major Claudiano ainda sem calçamento, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição com sua inconfundível torre, mas o entorno totalmente diverso- inclusive o que se deduz ser pedaço de fachada do então Colégio Nossa Senhora de Lourdes? E que estranhamento nos assoma ao olhar a precária Ponte Preta deserta ao lado da hoje rotatória que a substituiu e  é acesso ao superpovoado bairro que alongou a cidade para o oeste- e não se passaram 50 anos!
 
Sob a Concha Acústica existiu um Caramanchão formado por pilares e coberto por primaveras- deste tenho vaga recordação. Também guardo lembranças difusas do Coreto próximo, que cederia lugar à Fonte das Quatro Estações quando a Praça Nossa Senhora da Conceição foi remodelada. Naquela época a Barão ainda tinha jeito de praça de cidadezinha europeia com suas árvores enfileiradas e o róseo palacete da Baronesa, cujos fundamentos resistem atrás de placas e pichações. Para quem se posta hoje de costas para o Edifício Esmeralda, a visão da torre da Catedral é a mesma do passado, com um quê romântico posto que entre copas de árvores e contra o puro azul do céu francano. Distante dali, a Ponte da Avenida Hélio Palermo soterrou há muito tempo os vestígios da Estalagem da Rua Evangelista de Lima. 
 
Duas imagens acendem meu imaginário. Uma mais antiga mostra o Sobrado Verde dos Steinberg, judeus que moraram em Franca nos anos 40. Escritores de Franca, como Luiz Cruz de Oliveira e José Chiachiri Filho,  já o resgataram em suas páginas, de forma que ele resistirá incólume também na literatura francana. O mesmo se diga do agora já mítico Hotel Francano, cuja importância arquitetônica foi desconsiderada quando o derrubaram para construir o prédio feio, só concreto, do Banco Itaú. 
Enquanto folheamos a publicação, vamos revivendo de janeiro a dezembro detalhes da  história de nossa Franca  impressa nas páginas que assumem, sob este aspecto, também o foro de almanaque, de quem os substantivos agenda e calendário são parentes. Os três repousam sobre conceito de tempo e são legados que chegaram há séculos para enriquecer nosso léxico. Se calendário é grego e agenda é romana, almanaque é árabe. A etimologia deste último, que oscila por conta da substituição de uma consoante apenas,  traz conotações que fazem sonhar, como a maioria dos relatos árabes. Se  vem de al- manaj, como defendem alguns filólogos, designa o círculo do relógio solar que marca a sucessão dos meses, a lunação, os eclipses, etc. Se é oriunda de, al-manah , como querem outros, seria  o lugar onde se pára numa viagem para o camelo descansar, em analogia com as 12 hipotéticas paradas que a Terra faria no seu trajeto ao redor do Sol, recuperando forças nas casas do zodíaco. Mas se advém de al-manak, refere-se ao lugar onde  os nômades se reuniam para rezar, contar experiências de viagens, ouvir  notícias de suas terras. 
 
Agradeço de forma tripla o inspirador presente da diretoria da Fundação Educandário Pestalozzi: a  agenda para marcar compromissos, o calendário para não me esquecer do tempo, o almanaque para ter sempre em mente que uma cidade se constrói incessantemente, em camadas que vão se acumulando sobre outras que desaparecem aos olhos mas perduram na lembrança. O resgate do passado fixado pelos pinceis de Pedro Schirato e o registro do presente captado pela câmara de Daniel Montagnini, representam mais que uma forma de criar um produto com significado para a comunidade escolar e amigos da fundação Educandário Pestalozzi. É um tipo de declaração de amor a Franca; é homenagem delicada de uma instituição de ensino cujo nome está estreitamente vinculado à terra que a viu nascer, crescer, solidificar-se e tornar-se a grande  referência em educação que todos nós conhecemos e da qual nos orgulhamos.
 
Obrigada, Gisele!

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