O famoso bar do João

Por: Isabel Fogaça

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O famoso bar do João fica no município onde não mora quase ninguém, pacata Conceição dos Ouros, lugar onde o centro ainda é domado por senhores que acendem o fumo guardado em plástico no bolso do paletó. Lugar onde as pessoas confiam na palavra e desconfiam do cartão de crédito. Onde mulheres bonitas e formosas são as mais gordinhas. Cidade onde  ninguém tem o primeiro nome, sua índole é traçada pelo seu sobrenome, e pelo “É filho e neto de quem?”. O bar do João fica ali entre a sabedoria traçada por ervas e chás, e as fofocas mirabolantes entre as janelas.

Quando eu era criança minha tia tinha um hotel no centro da cidade e enquanto minha mãe ia trabalhar, eu e meu irmão ficávamos à tarde vendo a cidade pela perspectiva de diferentes janelas do local. A igreja vista de frente era o cenário que abrigava grupos de velhinhas de terço na mão, se subíamos um pouco as pupilas, víamos o imenso sino que de tão perto parecia tocar dentro de nossa consciência. Paradoxalmente, às vezes minha tia gritava assustada: “Que inferno!”. A janela que permitia a vista da igreja do lado esquerdo evidenciava o portão do catecismo que abrigava crianças saltitantes de caderno nos braços. Às vezes, eu ia até lá, sentava entre elas para desvendar o mistério dos santos, como se fosse um jogo divertido, foi nesta igreja que ouvi pela primeira vez a história de Santa Mônica, e de tão bonita e valiosa, contei para a família inteira. Porém, mesmo com todo prazer que aquele lugar me oferecia, ainda não era o meu favorito, eu gostava mais do bar do João.
 
O bar do João ficava entre a igreja e o hotel. Não era um bar de bêbados moribundos, de conversa alta, ou de mulheres que gostavam de brigar. Não tinha uma mesa de sinuca, muito menos apostadores. O bar do João tinha cheiro de sorvete caseiro de morango, uma mesa tímida encostada na parede esquerda que exercia o papel de apoiar apenas o jornal do dia. No centro do bar havia um freezer de picolés industrializados e um de sorvete caseiro, havia também uma prateleira cheia de doces coloridos que dentistas odeiam, entre eles: suspiros, pé de moleque, doce de banana, paçoca e gibi. Já o João era um senhorzinho que usava roupas pálidas, quase sempre uma camisa batida, e chinelos de avô estilo rider. Seus óculos eram quadrados, e seu cabelo parecia um campo de trigo fresco banhado por ondas de gel. Seus dedos eram pequenos e gordos, e ele tinha um jeito de sorrir aconchegante.
 
Todas as tardes eu descia até lá e convidava João para uma partida de damas, ele nunca recusava, e quando acontecia, nós jogávamos baralho. Eu tinha seis, João deveria beirar os sessenta, falávamos sobre várias coisas. Eu contava sobre a minha escola, e ele contava sobre a sua filha que morava longe. Outras vezes eu dizia emburrada: “Mas o que tanto tem nesse jornal aí?” Então, ele tinha o cuidado de explicar as notícias, assim como me ajudava na tarefa. Essa foi minha programação da tarde por um longo tempo.
 
Hoje, após vinte anos, enquanto eu caminhava, passei em frente ao bar do João, minha primeira reação foi tentar respirar o mais rápido possível para sugar todo o aroma de sorvete de morango fresco, tive sucesso. Olhei em volta e vi o João, quase irreconhecível depois de um longo tratamento contra o câncer. Porém, ainda possui cabelos de trigo, e preferência pelos chinelos de avô. Lancei, então, um sorriso terno construído apenas com os lábios, e ele respondeu receptivo. Não sei quão minha fisionomia mudou, ou se ele ainda lembra das partidas de damas, das tarefas da escola, e da minha preferência pelos picolés de groselha. Não sei se sua filha ainda o visita, se ela se formou na faculdade, e se ele ainda sente tanta saudade. Mas sei de duas coisas: João nunca deve parar de fazer sorvete e boas histórias nunca morrem quando são eternizadas no papel.

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