Canivetes

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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O canivete na vitrina é maior que a pressa. Interrompe a caminhada. O homem fica ali, namorando o objeto – fetiche momentâneo em meio à parafernália de bugigangas expostas. A loja oferece material para caça e pesca, ele lembra que andorinhas e antas e veados estão em extinção, os peixes desaparecem dos rios poluídos. Fica matutando e não atina que espécie de comprador mantém este comércio, a loja aberta. Aliás, não compreende a sociedade de consumo.

Faz tenção de afastar-se, mas permanece menino enfeitiçado, passarinho preso por eterno e inexplicável hipnotismo de jararaca.
 
O canivete aberto mostra várias lâminas, abridor de garrafa, puxador de rolha, cortador de unhas, outras peças cuja utilidade não alcança. 
 
Os olhos, a alma estão presos no sonho infantil. O pai prometera um no dia de seus anos – não tão bonito, de apenas duas lâminas – mas o sol estragou o arroz, só colheu dívida. Ficou para o outro aniversário, mas a colheita foi novamente de desgostos e desesperança. Falta de chuva, de preços, doença da mãe fizeram o pai esquecer a promessa.
 
A vitrina, os óculos ficam embaçados, quebra-se o encanto, o homem afasta-se, limpando os olhos. 
 
A pressa está morta. Caminha devagar, relembra texto escrito há mais de vinte anos: “As oportunidades sempre chegam. Muito cedo, quando sequer as vemos ou não estamos preparados para elas; ou tarde demais, quando já não as queremos ver ou estamos podres para elas”.
 
O homem se afasta. 
 
Menino que se perdeu nas ruas, pode presentear-se hoje com muitos canivetes como o da vitrina. 
 
Para quê?

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