Por trás da pitangueira

Por: Isabel Fogaça

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No alto do rio Sapucaí que banha a cidade e atravessa o quintal de meu avô, tem uma pitangueira. Em época de fruto, a pitangueira fica tão viva quanto uma árvore natalina. Os pássaros miúdos saudam as pequenas frutas que se parecem minúsculos pimentões usados em carne suína em festas comemorativas. O cheiro da pintanga é doce, e o gosto levemente azedo.

Quando eu era criança minha avó abandonava o reprise da novela da tarde e fazia o convite entusiasmada: "Vamos chupar pitanga com a vovó?". Então, descíamos cuidadosamente o barranco do quintal atrás das frutinhas.
 
Quando minha avó não fazia o convite, era eu quem fazia a intimação para nosso ritual que deveria ser elaborado todas as tardes até o fim da temporada da pitangueira.
 
Sentar embaixo do pé e assistir minha vó colhendo, comendo, e equilibrando as sementes na palma da mão, era uma espécie de oração diferente daquelas que a gente faz por obrigação mas similar aquelas que tocam com sinceridade o coração por motivo de gratidão.
 
Eu e minha avó construímos histórias ali, naquele quintal, embaixo da pitangueira cheirosa e florida. Apesar de muitos anos, talvez a única coisa que ela não sabe sobre mim é que não gosto de pitanga, mas por amor às vezes fazemos sacrifícios sorrindo.

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