De volta à critica da crítica

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Como está a crítica brasileira depois dos embates entre duas de suas correntes principais que, nos 1980, levaram um pequeno poema experimental chamado “Pós-tudo”, de Augusto de Campos, ao centro dos acontecimentos em Cadernos de Cultura que já não existem mais? Essas e outras questões são abordadas em Vista das Musas no Trópico – De Volta à Crítica da Crítica, que Leda Tenório da Motta lançou no último dia 23.  

É estudo raro e fundamental sobre linhas de força da crítica literária brasileira. Está de  retorno às estantes, após ser revisto, aumentado e atualizado por sua autora, Leda Tenório da Motta.
 
Bom humor e distanciamento são virtudes que permeiam o livro, desde o título irônico. Sem deixar de tomar posição, Leda retoma o debate de ideias entre as duas grandes correntes que nortearam o estudo da literatura no Brasil (as escolas de Antônio Cândido e Haroldo de Campos) e, dessa forma, faz com que seja ressaltada a importância de ambas na evolução das letras no país.
 
O novo volume vem se juntar a outras obras de Leda, como Céu-Acima- Para um tombeau de Haroldo de Campos (2005), Roland Barthes- Uma biografia intelectual (2011) e Barthes em Godard- Críticas suntuosas e imagens que machucam (2016).
 
Leda Tenório da Motta é professora de comunicação e semiótica da PUC/SP, pesquisadora, tradutora e crítica literária. Estudou com Roland Barthes, Gérard Genette e Julia Kristeva. É doutora e pós-doutora pela Universidade de Paris VII.
 
O evento de lançamento foi  uma récita-improviso a cargo de alguns estudiosos de poética, como entre outros Marcelo Tápia (Casa das Rosas) e Augusto Contador Borges (USP), com falas críticas em torno da recepção do poema que foi, nos anos 1980, o objeto de uma verdadeira batalha estética travada nas páginas do antigo Folhetim da Folha de São Paulo, antes de ser recolhida em livros. Vista das musas no trópico dedica a essa controvérsia todo um capítulo. A ideia é desarmar as tensões, promovendo uma celebração poética, quase 30 anos depois. Daí o título “pós-tudo depois de tudo”. 
 
Mais de trinta anos depois que a escola dos chamados intérpretes do Brasil desentendeu-se com a escola dos concretistas, argumentando que experimentalismos e estrangeirismos não faziam sentido na periferia do capitalismo, o desenrolar dos acontecimentos parece pôr cada vez mais em risco as certezas dos arguidores. Por que então voltar ao ponto?
 
 Para a autora, não apenas porque as novas mídias e o mundo globalizado aí estão para atestar a caduquice das críticas fixadas nos valores nacionais mas porque se insinua hoje nos melhores nichos da crítica de arte a desconfiança filosófica de que as artes não nascem nunca neste ou naquele lugar mas recomeçam a cada volta em toda parte, abrindo uma história das ressurgências e um arquivo interminável. A tese de que a literatura é sua circunstância nada mais tem de plausível. Nem tampouco o seu corolário: a tão incutida lição das ideias fora de lugar.
 
Esta reedição dobra a aposta da autora na hipótese, em 2002 escandalosa, de que há mais que a força do meio a ser acionada quando se pergunta o que é a literatura, o que são as artes. Confirma assim um parti pris assumido quando ainda era perigoso fazê-lo, porque atentava contra o nosso próprio habitus mental. 

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