MÉIDA

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Na Aramina, minha terra natal, havia um desses personagens folclóricos, que todos conhecem e que perambulava pelas ruas da cidade, fazendo amigos, distribuindo simpatia, dividindo as dores e multiplicando as alegrias. Era um negrinho retinto, magrelo, forte, bom de bola e exímio trabalhador com máquinas de carregar cana, mas quando não havia serviço ficava levando suas peripécias aos moradores e trabalhadores da cidade. Baltazar era mais conhecido pela alcunha de Méida, pois em todos os questionamentos ele, antes de responder, dizia “méida”, donde surgiu seu apelido e pelo qual era por todos conhecido. Quando não estava trabalhando ou jogando bola, seu sustento vinha de um irmão mais velho, que lhe dava dinheiro e abrigo.
 
Num dia aziago, no final do período de seca e início das chuvas, quando as cidades são invadidas por besouros, cupins, formigas e cigarras, seu irmão veio a falecer de repente, deixando o pobre Méida desamparado, pois morrera a sua única família. No velório estava ele sentado ao lado do caixão, cabisbaixo, olhos empapuçados, diversas outras pessoas faziam-lhe companhia honrando a memória do finado, que também era muito querido na cidade. Lá pelo início da madrugada, apenas umas quinze pessoas estavam presentes, conversando os mais variados assuntos, saboreando uma cachacinha, que sorrateiramente aparecera para aquecer os ossos enregelados, quando, de repente, um dos notívagos deu um grito estridente e disse que o defunto havia se mexido. Imediatamente a maioria se levantou e ficou observando atentamente o corpo inerte, quando perceberam que o punho do paletó deu uma alteada e, no mesmo instante, a porta do cômodo em que estavam ficou estreita para a passagem simultânea de mais de uma dezena de pessoas, inclusive o Méida que havia ficado por último. Passado o susto Méida voltou a olhar o defunto e disse: “Méida! É meu irmão. E se ele estiver vivo? Vou lá ver”.
 
Criando coragem aproximou-se do caixão e novamente viu o punho do paletó se alterar para logo em seguida sair de dentro da manga um besouro do tipo rola-bosta. Embora o ambiente não fosse propício, a gargalhada foi geral e todos voltaram para os goles de cachaça, cada um mangando com os outros. De manhã cedo, já quase na hora do enterro, a emoção foi maior, pois o Méida debruçou-se sobre o corpo do irmão e pôs-se a lamentar: “Ah meu irmão, você não podia ter morrido. Eu que sou um traste é que deveria estar aí. Como vou fazer para viver sem você? Ah meu Deus, por favor, me deixe ir no lugar dele, que ainda é novo e tem muita coisa para fazer. Eu que não valho nada é que devia ficar no seu lugar” Nisso, ele levantou a cabeça e viu que todos estavam comovidos e em silêncio, ouvindo as lamentações e demonstrando estar compadecidos com a situação, talvez até concordando com os pedidos insistentes dele. Nesse momento ele olhou o rosto frio e imóvel do irmão e exclamou: “Mééééiiida que eu queria tá aí!”.

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