Bodas de Ouro

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Quando, há mais de cinquenta anos, a luz dos olhos meus e a luz dos olhos verdes teus resolveram se encontrar - com sua licença Mestre Poeta Vinicius de Moraes – ai, que bom que isso foi, meu Deus, que frio que me deu o encontro desse olhar. A partir daí não havia mais luz quando não percebia a tua presença e o frio que sentia era a ausência de teu olhar. Era infinito o desejo de ficar enlaçado em teus braços, haurindo o perfume florido de lilases de teus lábios, encantando-me com teu sorriso suave e encabulado. Não havia mais meios de me libertar desse fascínio e a única forma era postular a teus pais a tua mão em casamento. Na verdade não se quer só a mão, mas todo o teu ser, teus olhos, teu olhar, tua boca, teu corpo enfim. O desejo era tão forte que eu me imaginava cingido pelos teus braços, boca com boca, olhos fechados, devaneando-nos como uma pluma pairando no ar e a lava interna do vulcão se aquecendo até que ficasse incandescente e explodisse numa erupção de amor intenso, substituindo nossas mentes e pensamentos por miríades de estrelas e astros multicoloridos num espaço etéreo.

No fatídico dia, tu me deixaste desprotegido perante o teu pai, que, embora, imaginava eu, estivesse preparado, tão logo mencionei a minha intenção, uma mola propulsora invisível saiu de seu assento e o impulsionou com tal ímpeto que, imediatamente, procurando por tua mãe, disse: “Nair, o Roberto quer levar nossa filha embora”. Acalmados os ânimos, já agora com tua presença, fomos agraciados com abraços e a implícita concordância.
 
No dia do casamento, 20/05/1967, eu estava de pé ante o altar, ansiosamente aguardando a tua entrada; a igreja estava apinhada de convidados, amigos e parentes; quando a porta se abriu vi um anjo vestido de branco resplandecer e iluminar todo o ambiente ofuscando o meu olhar. Tu estavas segurando o braço de teu pai que, sem titubear, sussurrou ao teu ouvido: “Vixe! A carne não vai dar”, referindo-se ao jantar que seria servido após a cerimônia.
 
No dizer de Mário Quintana, a vida é o dever que trouxemos para fazer em casa. Quando se vê já são seis horas; quando se vê já é sexta-feira; quando se vê já é Natal; quando se vê já terminou o ano; quando se vê passaram cinquenta anos. Para nós o dever de casa foi cumprido com muito carinho, cumplicidade e poucas rusgas, logo superadas, graças ao poder do desprendimento, da compreensão, do perdão e, principalmente, do amor indelével a que nos dedicamos. O prazer e a alegria de termos ao nosso redor quatro filhos, duas noras e seis netos maravilhosos, é o incentivo para continuarmos a viver e usufruir das suas presenças, até que eles escolham a casa de repouso em que iremos terminar nossa missão.
 
Enquanto não chega esse dia, Serafina, continuarei a te amar, a te apoiar em todas as dores e alegrias, convivendo com respeito, muito carinho e paz em nossos corações, já que cumprimos com êxito a nossa tarefa.

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