Petricor

Por: Isabel Fogaça

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Minha mãe foi levar meu irmão à casa de pai em São Paulo, e na volta começou a chover “miúdo e gelado” foi como ela descreveu. Meu pai, em solidariedade, deu a ela um guarda-chuva azul que ganhou como brinde de uma livraria de renome.
 
Após deixar meu irmão, neste mesmo dia, minha mãe pegou o guarda-chuva azul e foi me visitar em Franca. No caminho da rodoviária até minha casa paramos numa padaria 24 horas para tomar um café, falamos sobre várias coisas, inclusive sobre a solidariedade de meu pai ao doar o item de valor emocional.
 
Minha mãe ficou sete dias em minha casa em Franca, no sexto dia deu falta do guarda-chuva. Ligamos então, para o taxista que havia buscado minha mãe na rodoviária, perguntamos do guarda-chuva e nada. Procuramos embaixo de minha cama, na cozinha, e na área de serviços e guarda-chuva azul havia sumido.
 
No sétimo dia de minha mãe em Franca, era Dia das Mães. Percebi seu olhar triste, pouco falava, e quando dizia algo era sobre voltar para casa e resolver coisas do trabalho. Comecei a fazer planos mirabolantes com o intuito de animá-la e por fim fomos comemorar seu dia tomando café na padaria 24 horas mais uma vez, ela pediu um expresso e um pão na chapa, e eu um  canelinha. 
 
Li o jornal inteiro enquanto ela comia. Chamei a garçonete numa das pausas e perguntei sobre um guarda-chuva azul que possivelmente teria sido esquecido há uma semana . Minha mãe, animada, se intrometeu na indagação: “Eu acho que esqueci aqui! É um guarda-chuva azul! Tem um nome de uma livraria escrito em branco!”. A garçonete então saiu sem muita animação e foi até o caixa. Surpreendentemente voltou com o objeto em mãos.
 
Minha mãe retomou o brilho nos olhos. Voltamos para a casa, e entre assuntos cotidianos, dei uma bronca: “Mãe, você precisa ser mais positiva!” Então ela respondeu cuidadosamente: “Eu sou positiva, hoje se você usasse um pouco da sua sensibilidade enxergaria minha felicidade ao receber o guarda-chuva perdido. Eu estava triste, então a garçonete trouxe o objeto do mesmo jeito que eu deixei no caixa, e eu fiquei eufórica de felicidade. Não falei nada, mas senti. Muitas vezes eu não falo, mas demonstro, e ter encontrado foi meu melhor presente de Dia das Mães”.
 
Fiquei imóvel naquele momento, refletindo sobre os pequenos atos que trazem felicidade; isso até minha mãe perder o guarda-chuva novamente no banheiro do shopping.

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