Apocalipses

Por: Sônia Machiavelli

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Albrecht Dürer é um artista alemão do Renascimento cujos múltiplos talentos impressionam. Pintor, gravador, desenhista, matemático, foi  introdutor no Ocidente da representação gráfica em três dimensões. Maior nome da arte alemã no século XVI,   seu último trabalho foi Os Quatro Apóstolos, que ostenta duas lousas e na parte inferior do quadro algumas sentenças bíblicas. Os apóstolos são identificáveis por seus objetos: Pedro com as chaves, Marcos com o pergaminho, Paulo com o livro fechado, João com o livro aberto. 
 
Não é a única tela onde ele fixou João, presente também em Deposição, com expressão de sofrimento e num lugar parecido ao Gólgota; e  no célebre Pedro e João, em momentos bem posteriores à Paixão, quando ambos consultam o que parece ser um escrito. João é o grande inspirador de Durer para o conjunto de  xilogravuras chamadas Apocalipse, publicadas em forma de livro e consideradas não apenas o ponto alto da carreira do alemão bem como o início de uma nova era na arte da xilogravura. Dentre as quinze, destacam-se pelas  dimensões, equilíbrio, complexidade e  capacidade de impacto emocional , “Os quatro cavaleiros”, representando as forças da Morte, da Guerra, da Fome e da Peste. 
 
Para realizar este trabalho que terminou em 1498, Durer pesquisou a fundo a vida de João. Chamado o Evangelista, o Teólogo, o Divino, o Visionário, o Revelador, este João, antes de acompanhar Cristo, havia seguido um homônimo, o Batista. Tornou-se discípulo de Jesus, testemunhou os fatos mais importantes da sua vida, foi o único dos doze que o seguiu ao Calvário. A ele Cristo, já na cruz, confiou sua mãe.  Sabendo da ressurreição do Mestre, apressou-se a ir ao sepulcro e ali “viu e creu” que ele havia ressuscitado. Esteve com Pedro no Concílio dos Apóstolos, em Jerusalém, vinte anos depois da Crucificação. E após a morte de Maria, de quem cuidou, segundo a tradição cristã, estabeleceu-se em Éfeso, na Grécia, onde morreu idoso. Ali escreveu seu Evangelho, num estilo realista e preciso, registrando particularidades geográficas que seriam constatadas pela arqueologia moderna.
 
Mas foi na ilha de Patmos que João gravou no pergaminho seu impressionante Apocalipse, último livro do Canon, que inspirou artistas como Durer (e outros), e continua impressionando quem o lê.  A tradição mais  antiga registra que o autor foi banido para Patmos pelas autoridades romanas. Isso é bem possível porque o exílio, durante o período imperial,  era uma punição comum para diversos tipos de ‘ofensas.’ Entre elas estavam a prática de magia, astrologia e profecia.  Esta última,  se tivesse conotações políticas, igual à expressada no Apocalipse, seria percebida como uma ameaça à ordem e ao poder político romano. Três das ilhas Espórades eram o destino dos perseguidos políticos, segundo conta Plínio, na sua  História Natural.
 
O Apocalipse é a revelação, feita por Cristo a seu discípulo dileto, de acontecimentos futuros que têm no caos e desolação o seu tônus. À parte o viés especificamente religioso, liga-se a uma produção literária difundida entre judeus, sobretudo em épocas de  muitas dificuldades. Nasce da certeza da justiça divina e da dolorosa condição dos seres humanos no mundo, como, também, de uma concepção da história projetada em direção a uma catástrofe universal, seguida pelo triunfo de Deus e daqueles que permanecem justos. 
 
O Apocalipse de João se articula num conjunto de sete visões dispostas em série e concatenadas entre si. Povoado de figuras simbólicas,  prediz sofrimentos indizíveis, mortes, miséria, dores, flagelos e culmina com o Juízo Final. O estilo é fechado e seco, mas riquíssimo em alegorias e imagens. A narração se desenvolve através de saltos lógicos e repetições de visões, como se a cada vez a mesma coisa se mostrasse ampliada mas  com novas formas e cores, surpreendendo e assustando.
 
Não poderia portanto  haver  nome mais preciso e perfeito (Patmos) para a última Operação  Lava-Jato,  ação da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral  da República, que, na última quarta-feira, 17, cercou o senador Aécio Neves, prendeu sua irmã Andrea e seu primo Fred, e desvelou  o presidente de República em situação criminosa. A revelação foi feita pelo jornalista Lauro Jardim, de O Globo, que exibiu gravação onde o dono do maior grupo de proteína animal no mundo, Joesley Batista, obtém aval  de Michel Temer para comprar o silêncio do enjaulado Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara.  
 
O Brasil decente, que já andava perplexo diante dos últimos acontecimentos, vai permanecer por muito mais tempo estarrecido. Porque esta não será, com certeza, a última revelação apocalíptica. Que Deus nos proteja até uma Operação que possa ser chamada, de fato, Juízo Final.  

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