Poesia nas mãos

Por: Sônia Machiavelli

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Para  Sinara  Caleiro
 
“As mãos servem para pedir, chamar, ameaçar, suplicar, acariciar (...) interrogar, admirar, calcular, comandar (...) encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar(...) aplaudir, reger, benzer, exaltar (...) construir, trabalhar...”, enumerou em dezenas de verbos Giuseppe Ghiaroni no monólogo tornado célebre pela declamação de Bibi Ferreira e Oduvaldo Vianna.
 
Com renovada surpresa pelo que fica submerso no rol de  lembranças e lá um dia emerge, resgatei o início da peça dramatúrgica que fez sucesso nos anos 70. Milagre da memória afetiva, as palavras foram  recuperadas  diante do presente de amiga a quem admiro e profundamente respeito pela forma como reagiu a uma tragédia que a vida lhe impôs. O mimo é uma  bonequinha de pano, corpo estampado com flores miúdas, braços de tecido liso, cabelos de lã castanha, rosto alegrado por sorriso e olhos sutilmente pincelados. Conto os botões, laços e pérolas mínimas que adornam  a roupa e arrematam a cápsula transparente de celofane que protege e enriquece a boneca ao inseri-la numa aura de brilho. Me invade aveludada ternura para a qual contribuem macias recordações de infância, buquês de resedá,  micro laço entre caracóis, exíguas flores brancas em arremate de palha seca. O formato cordial que se aninha na minha mão direita aquece minha alma, me conduz por instantes a dimensões oníricas. 
 
Assim a arte, mobilizadora de emoções que hibernam e subitamente irrompem fazendo o ritmo da vida bater mais intenso. Assim a obra da artífice que de forma metafórica  expressa seus mais profundos sentimentos, desvela sensações, reúne estilhaços, mostra coragem indômita para enfrentar a vida depois da perda irreparável. Nada será mais doloroso, dilacerante, incompreensível  e contrário à ordem natural das coisas que enterrar um filho. No caso, uma filha jovem, linda, carinhosa, companheira, cúmplice- como atestam os que a conheceram, como a definem os posts da mãe,  tornados prosa lírica. 
 
Um homem sábio,  acho que Rumi, disse  certa vez que todo aquele que se põe a criar, seja o que for, no fundo, mesmo sem o saber, procura aliviar a saudade de seu criador. No caso de minha amiga, que está construindo poesia com as mãos, acredito que sua arte representa lenitivo para outra saudade: a que sente o criador na ausência de sua criatura.
 
Toda expressão artística  pode aliviar os pesos da vida, seja para quem a produz através  de sofisticado  processo interno, seja para quem se deixa afetar  pelas mensagens que dela emanam, num jogo de emoções marcado pela intersecção dos sentimentos - do autor, do espectador. Música, dança, teatro, cinema, pintura, mímica, fotografia, escultura, literatura, artesanato e tantas outras manifestações do belo que a alma concebe e concretiza são todas distintivas de nossa humanidade. Elas nos definem como únicos no vasto contingente de formas vivas que pululam na superfície do planeta. Os religiosos dirão que esta é uma face do divino que nos religa a Deus. Cada uma terá seu arsenal de signos com os quais vai se materializar e tentar se comunicar. E todas, em maior ou menor grau, poderão sinalizar para o mistério da poesia, que não se encontra exclusivamente nas palavras.
 
Pois a poesia  “existe nos fatos”, disse Oswald de Andrade; “é  um acontecimento humano e você pode encontrá-la em qualquer parte, a qualquer hora, surpreendentemente”; escreveu Victor Hugo; “é aquilo com que se sonha, que se imagina, que se deseja e que chega frequentemente”, cantou Jacques Prévert;  “é esta música que todo homem carrega consigo”, falou  Shakespeare através de um personagem;  “é uma espécie de regresso a casa” celebrou Paul Célan.    
 
Vive a  poesia quem, apesar dos embates da vida,  encanta-se com o desenho irretocável de uma flor, o ruído de um regato, a luz do luar, as notas de uma canção, o timbre de uma voz, o olhar de um cão, a elegância de um mendigo, a combinação de certas palavras aparentemente irreconciliáveis,  a pergunta de uma criança, o assovio suave que quebra o silêncio pesado, a “trêmula gota de orvalho na folha de inhame”, como cantam  os cordelistas. 
 
Faz poesia quem transfigura as coisas, mesmo quando atirado no abismo; quem é capaz de construir ainda que tudo esteja desfeito; quem tem condições de reviver o que persiste de harmonia dentro do maior caos. Cora Coralina fez poesia com versos e doces, na sua cozinha precária da casa velha da ponte, lá em Goiás Velho.  Minha amiga está fazendo poesia com tecidos, lãs, linhas, botões, pérolas, miçangas, pérolas, no seu espaço doméstico que tem flores no jardim.  Ela nos mostra que é possível costurar o que foi despedaçado unindo retalhos coloridos com a linha das lembranças  felizes e conferindo à inteireza da obra finalizada o perfume do amor que se evola em volutas de afeto inconsútil. 
 
Olhando de novo a boneca de pano, e com a imagem de sua criadora na mente, penso agora em um verso do poeta Hordelin, que o filósofo Heidegger tomou de empréstimo para uma conferência que se tornaria célebre: “... cheio de méritos, mas poeticamente/ o homem habita esta terra...”  

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