Viagens

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Aposentei-me como bancário. E o que deveria significar folga, lazer, descanso, resultou  sobrecarga.
 
Porque nasci professor, duplicaram-se as horas em sala aonde, modéstia às favas, insisto em distribuir bússolas, cartas de navegação, mundos fantásticos aos alunos. Porque nasci teimoso, triplicaram-se as horas à mesa, sujando papel branco, entulhando o cesto de rascunhos, para levar à meia dúzia de leitores meus escritos e minhas crenças.
 
A aposentadoria trouxe distração: mais aulas, mais livros. Distraí-me, esquecido da velocidade do tempo. Os ponteiros correram até Saturno, visitaram seus anéis, voltaram, e eu não vi sequer o relógio.
 
Acordo. Acordo muito tarde.
 
Hoje, desejando fotografar estrada boiadeira, revisito municípios da região e descubro: o mundo que conheci não há mais. Em lugar de porteiras, há portões eletrificados. Em lugar de trilhas e veredas, há estradas cobertas de negro.
 
O mundo de minha mãe e do meu pai não mais há.
 
Uma parte do meu mundo não há mais.
 
Sorte que, enquanto os ponteiros do relógio viajavam no bojo de redemoinhos lá fora, meu barco singrava as águas serenas do meu mundo interior.
 
Ouço pássaros e reconheço sinais de terras novas.
 
Aproximo-me já das praias.
 
Já avisto o castelo de Deus.  

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