A Tesourinha de Toledo

Por: Sônia Machiavelli

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Por duas vezes estive em Toledo, capital de Espanha até 1561, quando Felipe ll levou a Corte para Madrid. Da primeira, lembro-me mais do Museo El Greco, e da grande tela O Espólio de Cristo, motivo de polêmica do  pintor com o bispo toledano que não aceitou a forma como Jesus foi mostrado: em túnica vermelha, no meio da multidão, no momento inicial da Paixão quando é despojado de suas vestes.
 
Se escarafuncho  os escaninhos da memória também me recordo da nossa chegada em  ônibus e do impacto causado pelo imponente Alcázar,  torres pontiagudas apontando para um céu azul sem jaça. E de ter ouvido o guia falar que  fora construído no século III pelos romanos; usado como palácio pelos mouros por mais de oitocentos anos; restaurado pelos cristãos na Reconquista; e politicamente movimentado por Carlos I, que ali recebeu Cortez, o conquistador espanhol de fama cruel, tão logo este retornou do Novo Mundo com notícias  surpreendentes sobre a cultura asteca.
 
De resto, fixei principalmente a imagem que vemos no cartão postal mais reproduzido da cidade compartilhada ao longo do tempo por cristãos, muçulmanos e judeus. A retina capturou, e manteve na lembrança, o conjunto de construções  coladas umas às outras, algumas milenares, centenas representando o que se convencionou chamar “arte mudéjar”, fenômeno exclusivamente ibérico que combinou na arquitetura estilos cristão e islâmico. Seduzindo o olhar para os detalhes, esta arte fez de Toledo uma das cidades mais espetaculares do mundo. Como se não bastasse a riqueza cultural e o apelo estético, a natureza colaborou, fazendo o rio Tejo circundá-la em grande parte, antes de seguir rumo a Portugal. 
 
Minha segunda vez em Toledo foi em 2006,  quando lá estive com minha sobrinha Tatiana, convidada a apresentar projeto na Universidade Complutense. Terminado seu trabalho acadêmico, fizemos uns passeios rápidos ao redor de Madrid. Fomos a Alcalá de Henares, onde nasceu Cervantes; a Aranjuez, cujos palácio e jardins inspiraram Joaquim Rodrigo a compor o concerto homônimo; e a Toledo, que eu desejava ver com mais vagar.
 
Nosso ponto de partida era Atocha, a estação de trem que meses antes sofrera o pior atentado até então registrado no País, com 190 mortos e mais de dois mil feridos. Havia incertezas entre os espanhóis, mas sobre horário de trens, que ninguém duvidasse; partiam e chegavam pontualmente. Saindo bem cedo, tínhamos o dia todo para visitar cada um dos lugares escolhidos. E assim pisei outra vez em Toledo.
 
Fomos ao Monasterio de los Reyes , construído sob  encomenda de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, os “reis católicos”. Passeamos por pátios onde limoeiros e  laranjeiras perfumavam o ar. Atravessamos a Puerta  del Cambrón que dá acesso ao bairro judeu. Transitamos pelo Paseo del Miradero , com direito a ver o rio serpenteando o monte. Descemos à  Bajada de Alcantara.  E por ruelas tortas, quarteirões irregulares, outros portões monumentais nos perdemos olhando sinagogas, mesquitas, igrejas, fachadas  damasquinadas. Paramos na Plaza Zocodover, tão extensa. E então entramos na Calle Comercio, para as comprinhas.
 
Por toda a Idade Média e bem depois Toledo foi ponto estratégico de fornecimento de armas, com profissionais dominando as técnicas de fundição e fabricação de aço de alta liga. Entende-se por aí tantos souvernirs em forma de facas, espadas e objetos de cutelaria oferecidos aos turistas.  Nada daquilo me interessava; mas, de repente, algo delicado despertou meu interesse: pequena tesoura para cortar unhas, de cor dourada, ponta recurvada, desenho limpo e delicada inscrição em preto- Toledo.  Comprei-a sem pestanejar.
 
A tal  tesourinha virou  amuleto, seguindo comigo desde então. Trelelê, me  mostrava sua capacidade de me fazer lembrar a viagem. Até de casa mudei, e ela não se perdeu no perigoso caminho das tralhas que a gente leva de um lado para outro, como se fosse viver para sempre. Mas no Natal de 2015,  misteriosamente desapareceu, depois de  ser usada na montagem da minha árvore. Procurei  em cestas de costura, caixinhas, estojos, todo lugar onde pudesse estar. Atormentei pessoas. Culpei-me. Passei horas de um domingo em busca insana. Fiz até promessa a São Longuinho. E nada.  Cheguei à conclusão de que ela tinha sido destinada ao lixo,  num descuido, entre bolas de aljôfar quebradas, pedaços de isopor, guirlandas despedaçadas. Imaginava-a despejada em caçamba, depositada em caminhão, triturada pela máquina ou lançada a um aterro onde iria submergir no grande entulho da cidade. Fiquei muito triste porque algo nela me trazia minhas viagens e outras informações conectadas. “Tudo tem seu fim,” sentenciei. Me  lembrei de Guimarães Rosa:  “Transfoi-se me num triz”. 
 
Mas se é verdadeiro o ditado que afirma darmos mais valor às coisas quando as perdemos, é certo também que o tempo vai apagando tudo na memória, até a imagem de uma tesourinha dourada. Comprei outra, nem de longe parecida, mas boa para  atividades de meu neto João. E dia desses, depois de recortar  caixa de papelão para transformar em território jurássico, ele  me pediu pedaço de pano azul para colar e imitar rio. Ao mexer na caixa dos retalhos, eis que vejo, súbito, brilhar no fundo a ponta da tesourinha de Toledo!
 
Alguém saberá nomear para mim a emoção de reencontrar algo que se considerava irremediavelmente perdido? Ela tem nome ou será preciso inventar um? 

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