Olá, docinho

Por: Isabel Fogaça

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Quem já foi adicionado por um indiano em uma rede social? Eu já fui. Na época eu estudava inglês por conta própria e lia sobre o sikhismo. O homem de barba escura e sobrancelhas grossas usava turbante colorido além de exibir em suas fotos diferentes poses montado em motocicletas, e com ele eu treinava o meu inglês e ainda aprendia sobre uma religião diferente da minha.
 
Jagmeet era um rapaz inteligente e muito curioso; porém, algumas vezes permanecia no óbvio: perguntava se o brasileiro falava espanhol, se todos os meninos ganhavam bolas de futebol quando nasciam, e também dizia: “Vocês têm uma bela estátua” quando queria elogiar o Cristo Redentor. Confesso que nunca fui santa, e quando ele me entupia do clichê, eu perguntava se os ratos bebiam leite no pires junto das pessoas, na Índia.
 
Além da inteligência, Jagmeet era paciente, nunca me bloqueou apesar das minhas perguntas bizarras. Muito pelo contrário, às vezes ele me pedia em casamento, e dizia que teríamos “uma boa vida no Canadá.” Porém, quando cansou de ouvir ‘não’ passou a dizer: “Você é uma moça bela, sortudo do homem que viver com você um dia”.
 
Hoje, depois de muitos anos, me peguei rindo de tudo isso. Fui até sua rede social e mandei “hello,sweetie”. Diferentemente do passado, não queria ler sobre seu Deus muito menos treinar o inglês. Então, Jagmeet me contou que atualmente tem “uma boa vida no Canadá”; sozinho. O turbante permanece, o pedido de casamento também, a diferença é que ele tira fotos sentado  em carros do ano e não em motocicletas.

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