Quebra-pedra

Por: Sônia Machiavelli

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Menina ainda acompanhava minha mãe pelas ruas do entorno de nossa casa, rua Álvaro Abranches, 965, um lugar despovoado nos anos 60,  sem infra-estrutura  e  muito distante do centro- porque ninguém por ali tinha carro.  Pelo menos duas décadas seriam necessárias até que o bosque de eucaliptos, no cruzamento com a rua Santo Antônio, fosse derrubado e o bairro crescesse em direção à chácara do Petraglia, hoje Vila Nossa Senhora do Carmo; ou à avenida Presidente Vargas, sobre a qual avançou.
 
Buscávamos, minha mãe e eu, naquelas peregrinações sob sol escaldante,  uma planta chamada quebra-pedra, que em infusão liberava substâncias que fariam cálculos renais se desmancharem. “É por isso que se chama quebra-pedra”, explicava minha mãe lançando luz sobre minha ignorância. Como essa plantinha frágil, parecida com avenca, nasce e cresce  no meio de terreno pedregoso, às vezes até entre tijolos de construções, eu imaginava que o nome derivava da força do vegetal em irromper entre pedras, ou apesar delas. 
 
De vez em quando voltava a pensar nesse episódio da infância;  especialmente quando alguém me dizia que o chá de quebra-pedra era melhor que aquele procedimento cirúrgico doloroso conhecido pelo nome grego de litotripsia, palavra que quer dizer literalmente “esmagamento de pedras.” A planta esmagava de um jeito; a lito de outro...
 
O assunto ficou relegado nos últimos tempos aos  cantinhos inocentes  da minha memória, onde jazia  soterrado por lembranças mais contundentes, até que um texto veio resgatá-lo. Li num blog  que jovem pesquisadora cearense, Rayane de Tarso Ribeiro, ao trabalhar  num doutorado em Botânica na Universidade Federal de Pernambuco, havia identificado espécie inédita de quebra-pedra na Serra de Baturité, no município nordestino de Mulungu. Ela descobrira que no gênero, a estrutura da flor masculina tinha  estames unidos e não soltos como nas outras espécies. Esta característica desvelava sua  originalidade.
 
Todo biólogo que descobre nova espécie tem o direito de escolher um nome para ela; de batizá-la para identificá-la. Rayane quis homenagear a ministra Carmen Lúcia, do STF, por quem nutre grande admiração há muito tempo.  Chamou à plantinha de pequeno porte, com caule pouco desenvolvido e marcado pela estrutura franzina, Phyllanthus carmenluciae. Foi com este nome que o vegetal protagonizou o artigo de Rayane de Tarso Ribeiro, publicado em abril deste ano pela revista científica Phytotaxa, da Nova Zelândia. 
 
Desde então, a autora vinha tentando encontrar a ministra para lhe falar de sua homenagem. De como, desde os 16 anos, quando a vira pela primeira vez na televisão instalada na casa modesta dos pais, moradores da periferia de Fortaleza, tornara-se sua admiradora.  Rayane, naquela ocasião pretérita, se preparava para ser a primeira pessoa de sua família a cursar a universidade; Carmen Lúcia acabara de ser nomeada ministra. Com o passar do tempo, a estudante foi se tornando cada vez mais fã de Carmen Lúcia e chegou até a lhe escrever uma cartinha. Que não foi respondida, mas tudo bem, uma juíza muito ocupada como ela não tem tempo disponível para isso. E, ao que parece,  nem para receber uma bióloga que descobriu nova espécie vegetal e lhe deu o nome daquela que se transformara em ídolo.
 
Forte como toda sertaneja, Rayane não se deu por vencida, mesmo na ausência de repostas às mensagens enviadas ao gabinete da ministra e à assessoria de comunicação do STF. Insistia em mostrar à douta Carmen Lúcia a certidão de registro da planta e entregar-lhe um quadro com a imagem da mesma. Ficou esperando, certa de que surgiria a oportunidade. Foi quando chamou a atenção da equipe da  Rede Globo que comanda o Conversa com Bial. Os produtores haviam tomado conhecimento da publicação do trabalho da moça e a convidaram a participar do programa.
 
Conta Henrique Araújo, na edição de julho da revista Piauí, que Rayane foi e nem chegou a aparecer na tevê. Mas ao  final da gravação pôde conversar com Cármen Lúcia.  Registra o jornalista, autor do artigo Phyllanthus Carmenluciae (Como a presidente do STF virou nome de planta) transcrevendo palavras da pesquisadora: “Fiquei tão nervosa que nem sei o que falei, mas mostrei a planta a ela”
 
Talvez mal-impressionada com  a espécie mirradinha, a ministra fez piada: “Não tem uma árvore, não?” Rayane respondeu: “Não, mas eu vou procurar para a senhora.”
 
Ando refletindo sobre essa história, talvez porque como Rayane eu sou admiradora da ministra. Mas seu pouco interesse pela homenagem bela, carinhosa  e significativa, e esta pergunta, que permaneceu flutuando  entre o humor e o ato falho, sobre árvore, me desapontaram, embora venha me dizendo ultimamente que nós humanos somos seres complexos por inacabados. O mais empedernido narcisista tem seus momentos de compaixão; o reconhecido compassivo desvela um dia sua face narcísica; todo violento pode surpreender com gesto de extremada ternura; até em Madre Teresa de Calcutá biógrafos vêm apontando uns traços de mesquinharia- quem diria? Somos humanos precários, imperfeitos. Muitas reações dependem da ocasião e dos humores e uma das facetas da boa análise é abrir os olhos dos pacientes para isso.
 
E, cá pra nós, entre ser nome de efêmero quebra-pedra nascido na terra árida, mal se sustentando nas hastes quebradiças  e molengas, embora  com poderes terapêuticos, e ser nome de sólida árvore frondosa, símbolo de resistência, alimento e acolhimento-  quem não optaria pela segunda?
 
Vanitas vanitatum et omnia  vanitas. Em latim, língua muito apreciada pelos juristas. 

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