No meu lugar

Por: Isabel Fogaça

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Uma sala vazia rodeada de teias de aranhas, tomada pelo ar gélido e pela escuridão, foi mais ou menos assim que Dostoievski definiu a eternidade em um de seus livros, e eu gostei tanto que grifei com caneta vermelha. É desta maneira macabra que quando minha mãe ardilosa indaga com sarcasmo: “É horrível quando alguém nos coloca no nosso devido lugar, não é?!” que compreendo a obscuridade de estar no “nosso devido lugar”.
 
Confesso que eu demorei  para encontrar o meu devido lugar. Sentia imenso desconforto em festas da faculdade, por exemplo. Não gostava do cheiro dos cigarros, das conversas dos jovens, mas pelos meus amigos eu estava ali, o desconforto e a solidão me diziam que aquele não era o meu lugar e eu insistia em contrariar os meus instintos. Posteriormente, também tive um namorado de quem gostei muito, éramos amigos antes de qualquer coisa, curtíamos nossas bandas favoritas estacionados no posto de gasolina e gostávamos de filmes antigos, mas meu coração também dizia que aquele não era o meu lugar. Além disso, outro exemplo é que frequentei muitas igrejas, porém rezava de modo que não sentia minha energia vibrar, e percebi que deveria parar de me enganar, afinal, aqueles não eram, definitivamente, o meu lugar.
 
Não são necessários gurus para entender que o autoconhecimento está interligado com a compreensão do seu lugar entre as pessoas, sentimentos e todas as coisas do mundo, e isso exige um eterno processo: duro, solitário, misterioso, de experimentação. E ele gera frustração. 
 
No último final de semana tive que brigar para que o meu irmão tivesse o direito dele de sentar na poltrona preferencial do ônibus. Aquele era o seu lugar definido por lei. As pessoas que estavam ali descumprindo o combinado, não gostaram, mas quando a situação estava estabilizada, e meu irmão no lugar dele, um professor universitário que estava ao meu lado assistindo a tudo, disse em bom tom: “Parabéns por cuidar dos direitos do seu irmão”. Desci do ônibus, pensei no lugar dele, no meu, e fiz toda essa reflexão.
 
Nosso lugar é, acima de qualquer coisa, uma questão de conquista.

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