A que ponto chegamos

Por: Sônia Machiavelli

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Há dez anos leciono língua portuguesa para crianças (oriundas da rede pública de ensino) que frequentam a ONG  Academia de Artes, no bairro Elimar. Ofereço ajuda àqueles que têm dificuldades em leitura, escrita, compreensão de texto. E procuro estimular o gosto pela literatura. Avalio a cada final de ano o resultado, que tenho considerado  razoável. Poderia  ser bem melhor se conseguíssemos nos reunir mais de uma vez por semana. Uma hora de aula semanal  é quase nada. 
 
Até o ano passado tinha duas classes de 20 alunos. Neste 2017 consegui  abrir  espaço e  atender mais um grupo de crianças na faixa etária de 10/11 anos, todos alfabetizados mas com problemas de linguagem.  Em abril escolhi dois  textos para falar de duas datas importantes, como o Descobrimento do Brasil, tão bem retratado no poema de Cassiano Ricardo -Os nomes dados à terra descoberta; e Tiradentes, sobre quem  Cecilia Meirelles escreveu lindos versos no Romanceiro da Inconfidência.  Não consegui trabalhar o segundo tema, tendo em vista o que aconteceu ao primeiro.
 
Comecei a aula mostrando um globo e descrevendo o mundo no ano 1500, as terras conhecidas e as outras desconhecidas. Entre elas, o Brasil, que fazia parte do continente americano.  As crianças me olhavam curiosas, mas muito tímidas. Foi quando resolvi fazer uma brincadeira que  normalmente conseguia  movimentar os ânimos. Mostrei uma caixa de chocolates, que sorteio no final de cada aula,  e as instiguei a responder à pergunta que eu iria fazer.  O primeiro a levantar a mão levava os chocolates.  A pergunta era... Tchan  tchan  tchan... “Quem descobriu o Brasil?”
 
Imaginava uma disputa, cada um dizendo ter sido o primeiro a levantar a mão, como sempre acontecia  em situações semelhantes. Mas nenhuma mão se ergueu e achei que não tinham entendido. Voltei a perguntar: “Quem descobriu esse pedação de terra (tornei a apontar no globo) chamado Brasil?” Nada. Eu olhava para eles, incrédula. Eles olhavam para mim como se estivessem forçando ao máximo a memória. 
 
Depois de perguntar pela terceira vez, e me beliscar para crer no que o silêncio significava, resolvi chamar a Ilda Xavier, nossa assistente na ONG,  para atestar o inconcebível. Mas, claro, a fim de não deixar as crianças constrangidas, disse-lhes que Ilda iria ajudar a responder: “-  Ilda, quem descobriu o Brasil?” Ela então lhes contou. 
 
Cancelei o texto que pretendia usar naquela aula e achei mais urgente  falar sobre a chegada do português Pedro Álvares Cabral à nossa terra. Na aula seguinte levei um trechinho da Carta de Caminha, para ver se fazia uma aproximação entre presente e passado. Não sei se consegui. 
 
Por algum tempo fiquei perturbada com aquele episódio. Para mim era difícil compreender porque alunos com quatro anos de escolaridade não haviam ainda adquirido  noções básicas sobre o nascimento de sua própria pátria. Mas tudo passa e aquela sensação desagradável também passou.
 
Até que no domingo, lendo as Páginas Amarelas de Veja, onde o entrevistado é Sílvio de Abreu, autor que comanda o departamento da Globo responsável pelas novelas, vi que o mal não grassa só por aqui no interior, nessa fronteira de paulistas e mineiros. Entre outras coisas, diz  ele que precisou fazer ajustes na novela das 6, Novo Mundo, pois “os espectadores achavam que Pedro I havia descoberto o Brasil”.  E na das 11, Os dias eram assim, porque “os mais jovens ignoram que houve um golpe militar no Brasil em 1964.”
 
Atenta  ao texto de Marcelo Marthe, jornalista responsável pela matéria cujo parágrafo inicial nos lembra que 66 milhões de brasileiros sintonizam diariamente a Globo para assistir às novelas, concluí que  número assim gigantesco torna ainda mais grave a ignorância, mesmo que ela não seja da maioria. 
 
Sobre ela, a causa da  ignorância e seus estragos, em  determinado momento Sílvio de Abreu diz que “é triste, mas não estão (os espectadores)  aprendendo na escola.” É mais que triste, penso com meus botões; é desalentador e desabonador para o País.
 
Quero deixar claro que não  atribuo essa situação aos professores, que em sua grande parte desempenham funções com competência, lucidez  e coragem.  Conheço muitos que me são inspiradores. Mas existe algo  muito errado em termos de macro projeto da educação no Brasil. Há verbas, há material escolar, há salas de aula, há número crescente de alunos nas pesquisas do governo e, no entanto, a transmissão de conhecimento está se fazendo de forma equivocada, ao não resgatar para os alunos momentos básicos de formação da nacionalidade. Como foi a chegada dos portugueses ao Brasil, espoliado enquanto colônia por três séculos. 
 
Concordo com Sílvio de Abreu quando diz que “se você não tem o mínimo conhecimento sobre a história de sua gente, simplesmente não faz parte do país.” E lembro uma frase anônima, mas profunda,  calcada em outra do antropólogo Lévi Struass: “O Brasil está parecendo terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização.”
 
Porque civilização pressupõe  memória, esta que está se esfacelando dia após dia. 

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