O Caio não morreu, Cruz!

Por: Sônia Machiavelli

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Querido amigo. Você chegou estranho  à minha sala aqui no Comércio, na segunda-feira. Trazia  título  novo na mão e  traço triste nos olhos. O livro recém-nascido não combinava com o luto do olhar. Alguma coisa estava fora de lugar e fiquei desconfiada. Demorou um pouco para que me dissesse a coisa ruim  de se ouvir. 
 
Primeiro falamos do lançamento bonito do romance “Começa em Mar”, da francana Vanessa Maranha, no Shopping do Calçado, onde tínhamos nos encontrado no sábado, e ao qual você chegou depois de ir ao Franca Shopping, distraído sobre o  lugar do evento.  Comentamos a energia despendida em cada história na qual todo ficcionista se empenha até colocar ponto final e entregar a obra ao público. Abri um parêntese para lhe mostrar um trecho bonito do livro de crônicas da Isabel Fogaça, cujo trabalho de edição e prefácio tinham me dado muito prazer. 
 
Trocamos ideias sobre o paradidático que você me passava às mãos e no qual havia trabalhado em parceria com Regina Helena Bastianini e Edna Mendes Bastianini: “Estrada para Grande Sertão.” Passei os olhos pelas primeiras páginas e vi a dedicatória ao saudoso amigo Sebastião Expedito Ignácio-quantas lembranças num segundo!
 
Pra não perder o hábito, comentamos como o Brasil trata mal seus artistas, e com especial indiferença os que têm na palavra  ferramenta e na imaginação matéria prima. Tangenciamos  temas sofisticados como os sentimentos; outros hilários como a história  protagonizada por seu conhecido que não quer ir ao médico; e até os mais prosaicos que pertencem ao reino de guloseimas como chocolate e rapadura. Acho que esta última palavra deflagrou a notícia pesarosa.
 
Iguaria rústica, a rapadura tem na alma a doçura da cana e na carne parte da  história do nordeste; um pouco  como nosso  amigo  cearense, o escritor Caio Porfírio Carneiro. Foi aí que a conversa clicou no link que a fez remeter a algo doloroso que precisava ser dito: “O Caio morreu”, você disse. E antes que eu perguntasse, me respondeu. “Na segunda-feira. Foi de repente; eu falei com ele pelo telefone dias atrás, estava ótimo.” 
 
Depois do choque, o silêncio, segundos de rememorações. Os detalhes viriam a seguir:  “ele andava até se sentindo muito feliz, depois de passar por cirurgia para remoção de catarata,”  explicou.  Isso  deveria lhe  garantir  o prazer de ler melhor e de enxergar com mais nitidez a natureza, a paisagem urbana, os objetos, comentamos  com frases diversas na forma e iguais no sentido, quase ao mesmo tempo, tentando driblar a emoção.  Os seres humanos e nosso país ele certamente olhava com outras lentes que não físicas, imaginei com tristeza. Caio era um escritor que ia fundo na observação do seu entorno. 
 
E você estava sentindo tanta dor, Cruz, que me disse não conseguir escrever sobre ele. Fez um gesto com a mão fechada na direção do peito, e entendi que seu coração estava azulado e remoído. Um blues tocou na minha alma ao perceber quanto a perda lhe fora doída. Talvez por isso na terça-feira, diante da tela em branco do computador, e ainda com traços de sua presença na cadeira diante de mim, me deu vontade de lhe dizer isso: “O Caio  não morreu, Cruz!”
 
Porque cada vez que leitores brasileiros abrirem o romance “Sal da Terra” e leitores italianos, alemães, franceses ou árabes lerem do outro lado do mundo as desventuras de Mestre Nonato, Cego Delfino, Zé-Rodrigues, Guedegue, do menino Bibio, da louca Cristina, estas figuras anestesiadas pelos condicionamentos externos, sobrevivendo onde o branco das salinas não é metáfora de pureza e sim de contaminação, haverá um novo olhar sobre aspectos de nossa cultura que um nordestino radicado em São Paulo conseguiu transformar em arte.
 
Porque cada vez que algum vestibulando cearense  ler “Trapiá”, que se é nome de lugarejo também o é de árvore, vai sentir vontade de entender a beleza daquela composição de contos que são vários e um ao mesmo  tempo. Como esquecer “Milho empendoado”, “Mata-pasto”, “Candeias”, “Ventania”, “Come gato” e os outros seis que esteticamente estão próximos da novela mas se configuram  de jeito renovado? Como não admirar o jeito como personagens, ambiente e temáticas se interligam, conferindo unidade ao volume, tudo respaldado no princípio da grande literatura, ou seja, nos seres humanos e seus dramas diários,  vicissitudes, contrariedades, angústias, misérias?
 
Porque cada vez que alguém escrever sobre a história do Jabuti, o livro de contos “Casarão”, que deu origem à novela homônima na TV, será mencionado como um dos que estão entre os que mereceram o disputado prêmio. Ou mencionar o Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, “Os meninos e o agreste” será lembrado como aquele que disputou com outros títulos de autores já célebres e venceu de lavada. 
 
Porque cada vez que alguém historiar a importância da União Brasileira de Escritores durante períodos difíceis da vida política brasileira, o nome de Caio Porfírio Carneiro  se destacará rutilante como aquele que mais vezes presidiu a instituição, destinando-lhe boa parte de seu tempo precioso. E cada vez que algum acadêmico pesquisar no Curso de Letras da Universidade Stendhal o detalhado  trabalho de pesquisa de Danielle Damien sobre livro de Caio, ele  estará sendo resgatado em sua integridade.
 
Porque enquanto estivermos lendo a obra extensa composta por  contos, romances, novelas,  crônicas e crítica literária percuciente e elucidativa; e nos lembrando de sua boa risada, do som de sua voz, da disponibilidade em ouvir, do gosto em conversar, da vontade de escrever, da alegria de publicar, da fé na literatura e do entusiasmo pelos escritores... o Caio  estará vivo, Luiz Cruz Oliveira!
 
Nosso amigo permanece como as estrelas que não vemos durante o dia, mas que estão lá, inabaláveis sóis orbitados por planetas e satélites, esperando que a noite caia para que nossos  precários olhos as admirem em todo seu esplendor.

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