A arte de perder

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Foi apenas um cruzar de olhos e a chama da paixão incendiou-se. Quando Carmem saiu do salão de festas para ver a lua, naquela noite fresca de outono, sentiu-se presa àquele olhar. Um homem maduro, bem apessoado a fixava, insistentemente. Flávio, impressionado, mal conseguia continuar a conversa com os amigos, diante da visão daquela mulher exuberante. Falaram–se, conheceram-se e, logo, teve início um tórrido romance. Existia uma atração muito forte entre eles. Flávio, de personalidade sociável e acolhedora, ela, tímida e retraída, complementavam-se de forma ideal. Decidiram morar juntos. Foram tempos ardorosos de amores intensos.
 
Há muito, sonhos e ideais de juventude os tinham deixado. Tornaram-se frios e racionais. Profissões opostas, eram pessoas individualmente resolvidas. Tinham seus projetos e os realizavam por si só. Não dependiam um do outro, no entanto as opiniões diferentes que tinham para diversos assuntos eram obstáculos ao relacionamento deles. Orgulhosos, viviam se confrontando, não conseguiam se entender, na realidade do dia a dia. Mas a paixão continuava. Não se harmonizavam vivendo juntos, porém não podiam ficar longe um do outro.Decidiram morar em casas distintas e continuarem a se encontrar. Às vezes, propunham-se a viverem sós, ficavam meses sem se falarem, faziam longas viagens, solitários, mas sempre reatavam o romance. Por muitos anos, caminharam assim, sem uma total identificação, sem uma definição de vida a dois. Estavam envelhecendo juntos, mas separados por uma geniosa individualidade. Nunca deixaram de se amar, até que a vida os separou definitivamente. Carmem perdera seu amor. Consolou-se, pois estava ciente de que, na vida, perdemos um pouco a cada dia. Lembrou-se do poema “A arte de perder” de Elizabeth Bishop, em que a poeta conclui: “A arte de perder não é nenhum mistério, tantas coisas contém em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério”. Ela concordou, por mais que o ocorrido no seu viver parecesse muito sério.
 
Continuou sua vida, um dia após o outro.                  

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