Agostos

Por: Sônia Machiavelli

358180

A caçamba cinza da casa inacabada
impõe-se como nota dissonante
na manhã de  claro inverno tropical.

 
Dentro dela pedaços de concreto,
tijolos chamuscados, ferros retorcidos,
gesso quebrado, latas vazias de tinta
com seu  gelado  metal à vista.
 
Sacos de plástico- destes  que dizem levar século
até o desfazimento  total
dentro da terra empanzinada.
 
Mais pregos, parafusos,
sarrafos,  folhas mortas.
E uma  folhinha bem antiga_ 
a que chamam calendário
e alguns penduram em portas.
 
 
No final do dia virá o homem 
e cobrirá os entulhos com lona preta
como a preparar funeral.
 
Será  o cuidado  vespertino
(antes que caia a noite sepulcral)
para a coleta da manhã seguinte.
 
Tanto peso  na caçamba,
tanta ausência de cor,
tanta falta de ar:
parece até minha alma
em certos dias de agouro
 
Que guindaste será capaz de alçá-las?
 
À caçamba, o gancho de aço com certeza.
À  minha alma talvez a brisa fria 
que livra  das mãos frágeis da menina
a pipa que baila  triste neste agosto. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras