“Condente”

Por: Maria Luiza Salomão

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Meu pai, um brincalhão.  Suas palavras tinham encantos. Seu silêncio também.  Historiador, contador de causos, inventor de mundos. Só recentemente soube que também foi ator, trabalhou em teatro amador, adolescente, quase adulto. 
 
Quanto desta habilidade imaginativa o ajudou na sua trajetória?  Só agora, depois que ele se foi, vem a curiosidade.  
 
Eu o vejo no meio de uma roda contando histórias para os primos, para os netos, para mim. No Natal, era quem criava as brincadeiras para que nos esquecêssemos da meia-noite dos presentes. E esquecíamos. Todos: os adultos também, tanto quanto as crianças. 
 
A única vez que me bateu: um beliscão doído, que senti como que minha carne separando do osso. Mas doeu mais a raiva dele.  Ele não gritava, falava baixo, quase sussurrado, e era o pior momento, este. Sentir que, naquele momento, ele tinha raiva de mim. Muita raiva.  E ele se fechava em copas.  Ia para um canto só dele. E eu à deriva, tristíssima e medrosa. 
 
Mas, meu pai era alegre, alegre. Costumava me dizer, quando gostava de alguma coisa feita por mim: “assim a vovó vai ficar condente”. Ele dizia assim, condente, e eu fiquei muito tempo achando que quando as coisas iam bem, quando eu o tocava e ele me reconhecia sua filha, uma filha boa, uma boa filha, esta palavra era assim, única. 
 
Uma palavra de amor alegre. Tudo o que uma criança precisa.  
 
Inventar palavras é uma coisa sagrada, coisa de intimidade.  
 
Palavra inventada, para um gesto acontecido a dois, é o mundo para dois, e depois para mil, para o universo. Mas bate mesmo, com todos os acordes consonantes, é no fundo mais fundo de quem sabe que a palavra-ponte de dois inventou um mundo para a gente viver nele: a gente fica condente para o resto da vida.       

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