ESCRITA

Por: Angela Gasparetto

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Almejo que minha escrita reverbere o perfume da brisa do campo, do vento morno da primavera e do silêncio sacro das manhãs vazias de outono.
 
Que tenha o encanto de teclas obsoletas de máquina antiga e a beleza exótica desse som peculiar no silêncio vespertino da casa. 
 
Que minha escrita tenha o aroma do café companheiro e encontre o lúdico das tardes ociosas de verão. 
 
Almejo que minha escrita tenha o sabor das tardes quietas nas antigas fazendas de café e que, sem modéstia, tenha um quê dos ventos uivantes que tanto assombravam a personagem “Bibiana” de Érico Veríssimo em “O tempo e o Vento”.  Que ela traga esse misto de compaixão e deslumbre que me acometia ao ler o épico.
 
Que possa também transmitir um sorriso enviesado e terno sobre algum personagem torto e que de vezem quando, se não for pedir muito, traga lágrimas aos olhos de um leitor mais gentil.
 
Almejo que minha escrita seja algumas vezes visceral, como foi a de Ernest Hemingway, um pouco cínica como a de Machado de Assis, muito terna como a de Rubem Alves, melancólica como a de Marcel Proust, mas muito contundente como a de Caio Fernando Abreu.
 
Quero que meu leitor possa ter o desejo de se deitar à rede, saboreando um doce de leite para decidir ler-me, como fazia eu  na infância, lendo os clássicos amados. Balançar-se ao vento, gargalhar das tiradas de Fernando Sabino e se encantar como a ternura de Rubem Braga.
 
Com toda imodéstia que de repente me acometeu, almejo que minha escrita seja um objeto de companhia a ser lido quando meu leitor se sentir extremamente só, como fazia eu com Graciliano Ramos em “Angústia”. 
 
E sendo altamente pouco modesta agora, que, eventualmente, um texto meu possa curar alguém em uma noite de dor pungente ou conceder redenção para uma culpa que o atormenta vida aafora.
 
Mas acima de tudo, almejo que minha escrita penetre como uma música cadenciada nos corações dos leitores que  por ventura me escolherem; e que a mesma possa ser algum tipo de refúgio, a qual permitirá a eles exercerem um estilo de viver mágico, que os auxilie a viver essa nossa inóspita realidade de cada dia.

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