A FANTÁSTICA HISTÓRIA DO MENINO QUE NÃO TINHA PAI

Por: Isabel Fogaça

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O menino que não tinha pai abraçava o professor mais apertado do que os demais alunos. Talvez seja porque o professor não fazia cartões, nem gravatas como atividade para o Dia dos Pais, sabia que o menino órfão poderia se magoar. Que pena que na Igreja o menino não tinha tanta sorte; enquanto as demais crianças cantavam hinos destinados aos pais, o menino amassava o folheto de salmos para não chorar.
 
Na escola, o menino que não tinha pai observava o feijão brotar do algodão úmido que a professora trouxera de casa. Como era concebido o desenrolar do verde, sozinho, fora da terra? Por alguns instantes, o menino que não tinha pai tornava-se broto de feijão.
 
O menino que não tinha pai não guardava um álbum de figurinhas, nunca escutou uma história antes de dormir, nem tinha uma camiseta de futebol. Ele aprendeu a andar de bicicleta sozinho aos 18 anos de idade, enquanto os amigos compravam motocicletas.
 
O menino que não tinha pai não gostava de tocar no assunto, porém rezava para o desconhecido como se o pai fosse uma fumaça cósmica, ou uma massa de modelar sem forma que ficava grudada embaixo do tapete ou em algum lugar onde ele não poderia encontrar.
 
O menino que não tinha pai fumou um baseado, e quando foi pego pela polícia disse que o fato de não ter pai nada tinha a ver com a escolha. O menino que não tinha pai nunca teve uma conversa sobre sua sexualidade, ninguém disse a ele que era importante respeitar as mulheres, e que ser gay não era uma escolha.
 
O menino que não tinha pai me disse dia desses que optou por esquecer que já teve um pai algum um dia. Na cabeça do menino, ele foi concebido teatralmente por uma poesia, por alguma figura bíblica, ou por algum pai que não é o dele. O menino contou das garrafas de álcool que o pai bebia, da violência contra a mãe, e sobre um episódio onde sua cabeça foi ferida pelo  homem na quina da porta de um guarda-roupas.
 
- Esquece, menino. Hoje você tem uma história fantástica.
 
- Cabe num conto, professora?
 
- Cabe num conto.

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