Ficar no tipiti

Por: Sônia Machiavelli

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Todas as culturas nos ensinam alguma coisa de profundo, por mais que sejam primitivas. 
 
Os nativos de etnia tupi, para extrair o suco  letal da mandioca brava, costumavam ralar a raiz descascada.  Depois  empregavam as mãos para espremer a massa obtida.  Mais desenvolvidos, os maués da Amazônia usavam um tipo de prensa que consistia em um tubo de fibras da palmeira, com formato de cobra, muito flexível, operado sob  torção pelas mãos. Ele se chamava tipiti, palavra que era uma junção de outras duas:  ty (pão, farinha) e ypity (espremer, calcar). Para retirar todo o veneno, era preciso que duas pessoas segurassem as pontas do tipiti e o torcessem com  muita força; assim, a massa que estava dentro ia liberando caldo, até ficar totalmente desidratada.
 
Terminado o processo, a  massa ia para o forno e virava farinha e por aí se percebe a beleza da etimologia. O caldo, que continha  substância venenosa (o ácido cianídrico, chamado maniaca pelos nativos), se cru envenenava quem o bebesse; mas fervido se transformava num líquido  nutritivo e saboroso que  era misturado a outros ingredientes. Era o tucupi, muito presente na culinária paraense  até hoje. 
 
Mas se  o tucupi, em lugar de ir ao fogo, fosse deixado em descanso, ao longo de alguns dias um pó fino se decantava no fundo da vasilha, formando uma pasta. Esta era removida e lavada em água limpa várias vezes, secada e triturada, tornando-se   subproduto de vasto emprego na dieta indígena. Alimento com alto teor de carboidratos, foi chamado pelo colonizador, que dele muito se aproveitou, de  polvilho doce. Mas se a pasta fosse deixada mais uns dias no tacho para depois ser lavada, ela  fermentava  e se transformava no polvilho azedo, mais ácido que o doce e também de largo uso na alimentação até nossos dias. 
 
Foi com certeza observando  a grande pressão que a mandioca ralada sofria dentro do tubo de fibras flexíveis, que o português criou a expressão “ficar  no tipiti”, muito vívida na linguagem popular por séculos. Eu a ouvi quando criança da boca de minha mãe e de outros adultos da mesma geração dela. Na infância, quando ainda a metáfora não ganhara na minha mente outro sentido, ou seja, aquele  valor conotativo que a distingue como figura de linguagem, me questionava sobre o que seria “ficar no tipiti”. Um dia perguntei e me explicaram de um jeito  que compreendi: “é estar sem saída”. 
 
Décadas mais tarde, numa aula de Filologia, com o saudoso  professor João Alves Pereira Penha, cujo nome se insere no rol dos grandes filólogos do nosso país, voltei a ouvir a expressão, que ele reencontrara nos rincões de Minas quando pesquisava a singularidade do falar mineiro para sua tese de doutorado. Lembro-me  do muito que conversamos sobre a sabedoria popular naquela  tarde de setembro, flamboaiãs em flor no pátio do prédio onde então funcionava a Faculdade de Filosofia, Ciências s e Letras de Franca, absorvida depois pela Unesp. 
 
“Ficar no tipiti” não é situação invejável. Quando não  tem saída e sofre pressão dos dois únicos lados que poderiam aliviar a tortura de estar sendo triturado, cabe ao ser humano sujeitar-se.  Se for sábio, buscará  algo na experiência que possa representar  acréscimo à aventura de existir. Entender que muitas vezes o que nos cabe é suportar a dor representa ganho. Aceitar o tempo que  toda  transformação pede para se completar é outro. 
 
De resto, a  gente vive aprendendo e morre sabendo muito pouco.

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