singular

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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A singularidade, aparentemente, veste roupas comuns, confundindo, quase sempre,  o olhar cotidiano.
 
Apesar disso, no começo, a mãe até tentou chamar a atenção do marido.
 
— Larga de doidice, mulher. Cada um é um.
 
As broncas lhe trancaram a boca, aprisionaram as insistências, mas sua atenção era acordada, vez ou outra, durante a noite, durante o dia.
 
Criança, raramente chorava. Demorou para começar a falar, embora seus olhinhos inquietos procurassem segredos. 
 
Na meninice, teimava em não compartilhar as brincadeiras dos manos. De repente, sumia, ignorava os gritos da mãe, as ameaças de castigo. Nessas ocasiões, era encontrado, à boca da noite, trepado no galho alto da árvore, o olhar perscrutando oceanos ainda não sabidos.
 
Uma vez o pai perdeu a paciência, quando o filho adolescente abandonou as tarefas e começou a chorar copiosamente por um passarinho morto. Advertido, interrompeu o choro, ficou olhando os pais como se estivesse diante de marcianos.
 
Saído da adolescência, apaixonou-se por muitas e diferentes mulheres. Chamaram-lhe volúvel. Casou-se, decepcionou a esposa e os próximos. Angustiado, vestiu-se de garrafas e cordas de violão.
 
Morreu só.
 
Não colocou na pauta nenhum som azul de seu mar, nem desenhou no papel qualquer dos tantos versos que tanto lhe enlevavam a alma. 
 
Não importa.
 
Era poeta.

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