Sonho que volte a me visitar

Por: Isabel Fogaça

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Venho contar que ainda tenho sonhos estranhos. Espíritos no formato de fumaça escura me perseguem por escadarias mal acabadas feitas de cimento. Estes espíritos são fugazes, maldosos, zombeteiros; oscilam de tamanho, são formais, usam chapéu e casaco de detetive. Ao encará-los, eu apenas corro, e tento defender a minha família, afinal, ainda não descobri qual a real intenção deles, além de causar pavor. 
 
Lembro-me bem, no passado eu tinha sonhos parecidos, mas ao tentar correr, parte do meu corpo impossibilitava que eu saísse do lugar, como se eu fosse pesada demais, o bastante para não conseguir mover as pernas. Nos meus últimos sonhos, acontece algo diferente, eu corro muito bem, Usain Bolt e o Papa Léguas ficariam para trás. Você precisa ver o quanto minha roupa tem ficado suada em segundos. Além disso, criei uma coragem absurda e várias vezes tentei tocá-los, mas eles explodem em pequenas partículas como um monte de areia em contato com um jato de água.
 
Infelizmente, tenho que te contar, também, que ainda sonho com acidentes automotivos, quase sempre comigo e com a minha mãe. Mas perdi aquela fragilidade, ou medo de agir, você se lembra? Eu parecia ser feita de cristal. Vitoriosamente, nas últimas vezes que sonhei que o carro caía no rio, eu consegui soltar o nosso cinto de segurança, apesar da pressão forte feita pela água, e segurei a cabeça da minha mãe para que ela não fosse arremessada contra com o vidro, que alívio! 
 
Os cenários aterrorizantes se misturam, e também sonho com armas de fogo e prisões; dia desses, sonhei que minha mãe ficou presa com um espírito armado que incendiava um castelo de cimento, e eu fui tão forte que consegui entortar uma janela feita de grades com os meus próprios braços, sem o auxílio de materiais construídos pelo  homem. Libertei minha mãe de maneira muito fácil, eu apenas apoiei os braços e a salvei. Isso foi inédito. Apesar do sufoco, a sensação de libertação tem sido incrível.
 
Apesar de tanta superação, ainda falo dormindo, e vejo aranhas descendo do teto. O médico disse que é o sonambulismo em conta da ansiedade. Mas me sinto incrivelmente mais forte, mais corajosa. Li que o significado de coragem é viver com o coração, achei bonito e imediatamente me lembrei de você. E apesar de sentir o reflexo de minha luta em meus sonhos, tenho saudade de quando você aparecia neles. 
 
Meu coração ficava calmo, e eu não tinha vontade de acordar; quando acontecia, eu fechava os olhos novamente com força para ver se te encontrava mais uma vez, mas você é danada, acho que gosta quando a gente sente saudade, parece aquelas visitas que a família gosta de receber, que faz o tempo passar rápido, e que demora a voltar. Pensando nisso, hoje abri minha caixa de e-mail e então percebi  que há oito anos que você partiu, e já que não posso te visitar, agradar o meu olfato com o cheiro do seu cabelo, meus olhos com o seu sorriso, e o meu paladar com a doçura de seu brigadeiro coberto por cristais de açúcar, venho pedir que você volte a me visitar em meus sonhos. E por falar em sonhos, hoje assinei o contrato com a editora, vou publicar o meu livro. Apareça e eu juro que te conto tudo, afogada no seu abraço.
 
Dê sua sobrinha,
 
Isabel.

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