Coração menino

Por: Angela Gasparetto

360304
Tenho um velho coração que faz morada nas estradas de terras das fazendas de Minas.
 
E este coração menino prefere assistir ao pôr-do-sol empoleirado nos mourões das cercas carcomidas do caminho.
 
O meu viver é urbano, mas minha alma vagueia errante por estas paisagens bucólicas e meus olhos acompanham perdidamente os ipês floridos que acenam nas curvas da vida de outrora. 
 
Quando chega à tarde e caminho por estes lugares calmos e belos, este meu coração menino volta em um tempo impreciso de felicidade já vivido e de doces saudades guardadas ao vento. 
 
Houve um tempo quando o meu coração batia leve, a mente vivia serena e as únicas escolhas a serem feitas eram quais flores a colocar à mesa, eu podia ouvir o silêncio dos campos e sentir aquela paz adquirida nas travessias de fogos de um outrora. 
 
Nesta época, a música da harmonia era uma cadência de luz e regozijo, a qual embalava meu olhar cego de poeira do fictício horizonte da minha vida.   
 
E quando o verão despontava, mesmo que a primavera ainda tivesse  primazia, o meu coração menino já pressentia o vento da alegria e daquela liberdade pujante, toda costurada de uma pueril poesia.
 
Hoje, dessa exuberância que me queimava inteira, às vezes só restam fagulhas ao vento... 
 
Mas de vez em quando ainda solto o meu corpo nas campinas  floridas no amanhecer, respiro o ar puro deste fim de inverno e bebo a água límpida de algum riacho que corre inocentemente por um vale qualquer. Com os olhos fechados, dou graças ao Criador por ainda poder sentir estes prosaicos prazeres, que é nosso maior tesouro na terra, ou seja, esta paz gratuita.
 
E sinto que agora começo a carregar um coração menino, repleto desta complacência necessária frente às intempéries da vida, pois dessa poeira de fagulhas soltas de contraditórios sentimentos, aqueço uma nova de redenção para a alma.
 
E quando o inverno terminar terá florido uma primavera inteira no meu peito
 
"Que a terra nos acolha, a brisa nos acalme e o vento faça-nos mais livres. E que possamos seguir os campos vazios, tendo ao fundo apenas a lua como um farol divino. No fim na estrada, haverá o amanhecer, como todos os dias e em todos os tempos" 

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