Começa em mar

Por: Sônia Machiavelli

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Uma mulher vira peixe; outra desaparece no espelho; a terceira surta por algum tempo; a quarta, na verdade  primeira, se considerarmos seu protagonismo, passa por várias transformações e deixa o leitor a se perguntar o que ela fará  dali para frente, quando a narrativa se encerra de modo parcialmente aberto. Jordana, Marta, Hortênsia, Alice/Zulmira/Zuma, três em uma, são respectivamente as criaturas que, moldadas no espaço de ficção fundado pela autora, movimentam junto a outras e outros uma história que tem como cenário a ilha de Róvia, no litoral baiano, ela própria também personagem do romance Começa em Mar, da francana Vanessa Maranha: “que a ilha fosse um universo circunspecto, isso estava claro.” O livro, Menção Honrosa no Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2016, foi lançado recentemente em nossa cidade pela editora Penalux.  
 
Alice, filha de Concha, “espanhola muito aportuguesada”, e de Pedro, português de “natureza arredada”,  cresce na ilha, “na cisma de um, no lamento de outro, nenhum dos dois se abrasileirando (...).” A menina que na escola é conhecida como “a filha dos imigrantes esquisitos”, tem um cãozinho que lhe salva  um pouco seus primeiros anos. Chama-se Midraj, foi “largado em terras baianas por mascate das arábias”, e será o companheiro fiel da dona, já adulta, até o desfecho inesquecível da história. A família nuclear é apresentada ao leitor no capítulo de abertura, que tem o título sugestivo e emblemático de “fado”. Os seguintes, em número de 23, trazem reminiscências de versos camonianos (“mundo, além dali, não se via”), de canções lusitanas (“um sol para dourar as coisas deste mundo”); de parábola cristã (“filho pródigo”); de ditado popular (“para além da própria régua”); de tema pessoano (“a ponta do que é não ser”); de uma sintaxe singular que já tornou reconhecido o estilo da escritora (“mas, a pele quente à sua”). O último faz contraponto ao título: “acaba em mar”. As coisas extremadas se unem nos contrários. 
 
Alice se casa, tem dois filhos, e à custa de muito esforço constrói o Hotel Arenal, que se instaura como sua casa, lugar de hospedagem para turistas, e de trabalho para várias pessoas, entre as quais Hortênsia e Jordana. Adjacentes, ou no entorno, há ainda Marta, citada acima, mulher de um empresário rico; Pedra, dois séculos de existência, velhíssima senhora construída com tais filigranas que se fixa indelével no espírito do leitor; Mirtes, a obesa sogra de Alice, que desaparece da cama  onde jazia em vida, deixando apenas leve marca e forte cheiro nos lençóis. Por aí entramos então no reino do realismo mágico, povoado também por um pai que encolhe a dimensões ínfimas, a ponto de caber no bolso do vestido da filha; e por uma mãe que levemente assume jeito de brisa, sem lembrança de corpo, movendo cortinas e arrastando objetos. Tudo isso encanta o leitor, pois grande é a habilidade da autora na sua lida com as palavras, no seu talento em captar a essência dos seres, na riqueza da efabulação que seduz. 
 
Os homens deste universo de mulheres admiráveis na coragem de enfrentar o mistério da  vida, não chegam à altura delas, cuja humanidade vai se revelando aos poucos e de forma cada vez mais surpreendente. Enquanto respirou, Rafael, o marido de Alice, viveu acovardado num subterrâneo, fixando palavras soltas em papel, exercício maluco de ortografia sem nenhuma sintaxe. O primeiro amante dela, o estrangeiro Ingo, parece indiferente aos seres que o cercam. Joaquim, o último, é um mentiroso ou um ficcionista, não se sabe bem, de toda forma parece criar para si um passado questionável. Aluísio, companheiro de Hortênsia, é agressivo. Agenor, o homem de Jordana, rude. Olinto, que oferece amparo a Hortênsia, um velho carente, quase evanescente. Os da  nova geração, os filhos de Alice e os de Hortênsia, lembram criaturas sem muita condição para o amor, a entrega, a parceria, a generosidade; às vezes se mostram cruéis. 
 
A leitura de  Começa em mar  me levou a avaliar o livro como um romance de timbre feminino e  plural, no sentido de que a autora desvela de forma certeira o âmago das mulheres que desenha, esculpe, modela, cinzela. Ela lhes  infunde  vida, realidade, complexidade, sofisticação, nuances, contradições, medos, incertezas e toda aquela  vasta gama de sentimentos que parecem destinados a se misturarem. Em seus perfis diferentes, percepções singulares de mundo, sofrimentos que brotam de pontos profundos e quase inescrutáveis, muito susto diante da vida que vive pregando peças, tais personagens exibem constante angústia pelo que são e diante do que não conseguem ser. E o desejo, este que as move, que, aliás, a todos move, ganha na ficção de Vanessa Maranha nomes próprios e comuns, tintas intensas, definições realistas, principalmente um tônus que sustenta o enredo do começo ao fim e que  eu chamaria de erótico.  O erótico que pulsa não apenas no sexo mas também em toda vontade de sobreviver, o que significa emergir em águas revoltas, domar ondas, aprender com os  maremotos, sentir o sal curtir a pele, criar abrigos contra vendavais, usar os olhos como faróis na noite escura de perigos letais,  já que  “viver é sempre essa desmesura, esse conta-gotas implacável, o lentíssimo ruir das horas, galho verde ressecando”.
 
Esta frase aspeada, que permeia o discurso da narradora, é uma dentre a centena de outras antológicas pelo nível de excelência em termos estéticos, metafóricos, líricos, filosóficos, psicanalíticos. Destaco algumas: “É intensa e infinita a infância, rua de onde não se sai de todo. Nublagem feito sombra que entranha, quase víscera. Da infância ninguém se recupera totalmente.” “Em todo amor está contido o seu oposto, outra face. Qualquer amor carrega ódio subjacente”. “Mas, viver também era isso. Preencher minutos, inventar movimentos, alguma mínima lógica de projetos e certezas nenhumas”. “Alice havia muito superara o ultraje e o moralismo, não fazia julgamentos, que inexiste a mãe que alguma vez não tenha refilado para depois despencar no abismo do remorso e das compensações indo muda aos varais pendurar a sua resignação que tinha a forma de uma infinidade de roupinhas de criança.”
 
São mais que frases a definir caracteres de personagens ou contextualizar situações do enredo.  Verbalizam a sedimentação do que recolheu o olhar arguto e corajoso de Vanessa Maranha, lançado aos seres como rede ao mar.  Caem na alma do leitor com a força da verdade, que muitas vezes incomoda mas sempre há de acrescer ao humano que nos define.  Ao mesmo  tempo  que permitem valorar a lucidez e a profundidade da autora, apontam seu crescimento como escritora de vastos recursos ficcionais e pleno domínio da linguagem que renova em voos magníficos. Sorte dos leitores. Glória para a literatura brasileira. 
 

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