CORRENTEZA

Por: Ligia Freitas

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 Tu que corres contra a dor do amor,
 
 Terás tua dor maior,
 
 Quanto mais longe for.
 
 
 Tu que corres água corrente,
 
 Água que foge da nascente.
 
 Tu que jorras chamas e calafrios,
 
 Moves ventos e moinhos.
 
 
 Tu que corres ligeira,
 
 Contigo a terra semeia.
 
 Se de fasto és ribeira,
 
 Do alto és ribanceira.
 
 
 Que se abram as trincheiras do deserto,
 
 As matas altas, as mantiqueiras,
 
 A terra craquelada, as marchas estradeiras.
 
 
 Abunde, afunde água corrente,
 
 Socorre seu filho doente,
 
 Socorre, corre do inimigo,
 
 Avance, avante o desafio.
 
 
 Corre, não tenha medo,
 
 Esqueça o desassossego.
 
 Corre sobre o trilho,
 
 Corre, ouça o assobio.
 
 
 Correm moços e donzelas,
 
 Correm cochos e sentinelas,
 
 Correm homens e princesas,
 
 Correm as vísceras da marquesa.
 
 
 Correm cantos e canções,
 
 Morrem flores e paixões.
 
 Correm os ricos passarinheiros,
 
 Morrem os pobres mosqueteiros.
 
 
 Corre correnteza,
 
 Mexe, revoa o que é fraqueza,
 
 Sacode a esperança do leito,
 
 Renova a força da margem,
 
 Empina as ondas da vida,
 
 Acorda esta terra adormecida.
 
 
 Chega farta, não cochila,
 
 Deságua, não falha,
 
 Amolece o hermético coração,
 
Daquele que corre contra a dor do amor, 
 
Daquele que finge que nada sente,
 
 Daquele que nada contra a corrente.

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