Leia para uma criança

Por: Sônia Machiavelli

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No Brasil o Dia da Criança é a terceira maior data comercial do ano. Está junto àquela que homenageia as mães e só perde no ranking para o Natal. Não surpreende: vivemos em país capitalista, a cultura é consumista, o marketing mira firme o desejo adulto de presentear os pequenos com brinquedos, palavra que tem etimologia .bem ilustrativa. O substantivo deriva do verbo brincar, cuja raiz se encontra no acusativo latino vinculum, oriundo do verbo vincere, com sentido de prender, seduzir. No brinquedo e no brincar o que mais existe mesmo é encantamento.

Mas no meio do grande mundo colorido e brilhante dos presentes, vejo pouquíssimos livros. Talvez por isso tenha me chamado a atenção a campanha da Fundação Itaú Social, “Leia para uma criança- isso muda o mundo”. O texto publicado em página inteira do Estadão, no último domingo, nos inclina a pensar que “histórias facilitam a compreensão do mundo, ampliam os horizontes, aumentam a autoconfiança e ajudam a criança a desenvolver todo o seu potencial. E o mais importante: ler histórias é um jeito de você conversar sobre valores e mostrar que ela pode ser o que ela quiser. Leia para uma criança. Isso muda o mundo dela.”

Eu acredito nisso. Creio que narrativas são portas de acesso ao mundo dos sonhos; representam possibilidades de compreensão do diverso; levam ao desvelamento de realidades até então desconhecidas; permitem voos de invenção e fantasia, alimentos da alma. Palmilhar cenários criados por autores talentosos; acompanhar aventuras de seres erguidos com palavras e emoção; deixar-se fisgar pelo enredo ao intuir desdobramentos nas páginas seguintes são etapas de um processo que não se define apenas como entretenimento, é muito mais que isso. No ato de ler existe um desbravar de mundos.

Faço coro à Fundação Itaú e conclamo os adultos que acaso acompanhem este comentário a lerem, e não só neste outubro, uma história para uma criança. Ler para elas, ou junto com elas, tem um significado peculiar. A voz adulta, seu timbre, a proximidade física, os sentimentos comunicados, os cheiros do entorno, o calor humano ficarão associados ao enredo e personagens de tal maneira que o leitor será lembrado pela vida afora, mesmo quando a criança for um velhinho, uma velhinha. Ler para a criança estabelece vínculos emocionais e estimula a relação de interesse e curiosidade com a linguagem literária. É um momento de entrega. Pode ser terapêutico. Sem dúvida é mágico.

E leia também poesia, que tem o poder de mobilizar as emoções. Não será na vida adulta que o gosto pelo poema brotará súbito no coração humano. Versos precisam ser apresentados às crianças, que aliás fazem parte da família espiritual dos poetas.

Temos excelentes autores que escreveram para os pequenos tocantes poemas em língua portuguesa. De Cecília Meirelles lembro O Menino Azul, que “quer um burrinho para passear./Um burrinho manso,/que não corra nem pule,/mas que saiba conversar”. De Vinícius de Moraes, me salta à lembrança A Porta “feita de madeira/ Madeira, matéria morta/Mas não há nada no mundo/Mais viva que uma porta”. Mário Quintana em seu lirismo telúrico compôs os versos dos quais se apoderaram os adultos: “Todos estes que aí estão/ Atravancando o meu caminho,/Eles passarão./Eu passarinho!” Ruth Rocha fez questão de deixar bem claro O Direito das Crianças: “Toda criança no mundo/ Deve ser bem protegida/Contra os rigores do tempo/Contra os rigores da vida.//Criança tem que ter nome/Criança tem que ter lar/Ter saúde e não ter fome/Ter segurança e estudar.” O minimalista Paulo Leminski contou que “ A lua foi ao cinema,/passava um filme engraçado/a história de uma estrela/que não tinha namorado//Não tinha porque era apenas/uma estrela bem pequena,/dessas que, quando apagam,/ninguém vai dizer, que pena!” E Rosana Rios fez sorrir com seus guarda-chuvas: “Tenho quatro guarda-chuvas/todos quatro com defeito;/Um emperra quando abre,/ outro não fecha direito.//Um deles vira ao contrário/ se eu abro sem ter cuidado./Outro, então, solta as varetas/e fica todo amassado.” Marina Colassanti, que até já esteve em Franca, intuiu assim a curiosidade infantil: “Quem foi que primeiro/ teve a ideia/ de contar um por um/ os pés da centopeia?/Se uma pata você arranca/será que a bichinha manca?” Neste reino dos animais, tão caro a meninos e meninas, Sérgio Capparelli entrou com uma Canção para ninar dromedário: “Drome, drome/ Dromedário/ As areias/ Do deserto/ Sentem sono,/ Estou certo// Drome, drome/ Dromedário// Fecha os olhos/ O beduíno,/ Fecha os olhos,/ Está dormindo.” Pedro Bandeira, sensível à relatividade de tudo, exibiu seu Pontinho de Vista: “Eu sou pequeno, me dizem,/e eu fico muito zangado./Tenho de olhar todo mundo/com o queixo levantado.//Mas, se formiga falasse/e me visse lá do chão,/ia dizer, com certeza:/— Minha nossa, que grandão!” Manoel de Barros, tendo frisado que poesia não é para entender e sim sentir, escreveu sobre A Menina Avoada: “Foi na fazenda de meu pai antigamente/ eu teria dois anos: meu irmão nove.// Meu irmão pregava no caixote/ duas rodas de lata de goiabada./ A gente ia viajar// As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:/Uma olhava para outra/ Na hora de caminhar.” Já Carlos Drummond de Andrade, para quem “crianças são poetas por natureza”, questionou uma indagação recorrente: “ Que vai ser quando crescer?/ Vivem perguntando em redor./ Que é ser?/ É ter um corpo, um jeito, um nome?/ Tenho os três./ E sou?/Tenho de mudar quando crescer?/ Usar outro nome, corpo, jeito?/ Ou a gente só principia a ser quando cresce?”/ É terrível, ser? Dói?/ É bom?/ É triste?/ (...) Posso escolher? Não dá para entender/ Não vou ser/ Não quero ser. Vou crescer assim mesmo/ Sem ser./ Esquecer.”

E porque uma criança nos habita desde sempre, leia para você também o poema de José Paulo Paes onde a associação entre infância e poesia se faz com beleza e simplicidade: “Poesia é brincar com palavras/como se brinca/com bola, papagaio, pião.//Só que bola, papagaio, pião//de tanto brincar/se gastam./As palavras não:/ quanto mais se brinca/com elas/mais novas ficam.//Como a água do rio/ que é água sempre nova./Como cada dia/que é sempre um novo dia./Vamos brincar de poesia?”

Feito o convite!
 

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