Os trajetos de Isabel Fogaça

Por: Sônia Machiavelli

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Por experiência própria sei que ao nos iniciarmos na escrita temos necessidade de um olhar que nos estimule a publicar. Ele pode vir de um amigo que nos conhece bem, de um desconhecido que se encanta com uma narração, de um professor sensível à força das palavras, do colega que também busca seu lugar no mundo das letras mas é suficientemente generoso para reconhecer o talento alheio. De muitos lugares vêm os olhares que reconhecem o valor do olhar do escritor e da forma como este faz  migrar seus sentimentos e descobertas para as palavras, sua básica ferramenta.   
 
Pelo que conheço  até agora de Isabel Fogaça, sua escrita chamou a atenção da jornalista Joelma Ospedal, que me encaminhou uns textos para avaliação e possível publicação no caderno Nossas Letras, do Comércio da Franca.  De cara vi que a moça tinha o que dizer e o fazia de jeito peculiar, com seu olhar estrangeiro sobre a cidade que ela começava a descobrir, universitária recém-chegada às nossas colinas. Assim, a cada edição deste espaço de resistência, que é dos poucos  em Franca a acolher os que querem publicar seus textos de caráter literário, fui conhecendo melhor  os  fragmentos  da autora. Também a acompanhava no Facebook, onde seus posts, mesmo os  mais prosaicos,  traziam aquele algo mais que escapa da funcionalidade da linguagem e alça o voo das metáforas, falando mais e além do que a mensagem fática ou meramente descritiva. 
 
Eis que por ocasião da edição dos 102 anos do Comércio, ela escreveu  depoimento singular e afetuoso de jovem leitora. Comentei que me parecia uma escritora em construção. Dias depois  recebi pelo e-mail os originais que ela tencionava reunir em livro para o qual me pedia o prefácio, este que o leitor agora tem sob os olhos. 
 
Li  duas vezes todos os textos que pertencem sem nenhuma dúvida a um  gênero caro aos leitores brasileiros - a crônica.  Primeiro,  li com cuidado de editora quando se trata de autor iniciante. E reli  para avaliar de novo em seu conjunto aquela unidade que subjaz a toda obra, ainda que os textos sejam independentes, pois “cada escritor vai soprar no espaço em branco o seu próprio carma, a sua sabedoria cavada no atordoamento causado pelo tanto de mistério que nos constitui e humaniza.”- nas sábias palavras de João Gilberto Noll, que perdemos no último março.
 
O que me veio claro à mente é que a autora, escrevendo em primeira pessoa, tem como assuntos recorrentes a família, o lugar de origem e a infância feliz, que ela justapõe ao novo espaço, cidade na qual nunca colocara os pés, e que deve ocupar como universitária morando sozinha por sua conta e risco. O ir-e-vir entre bairros (e cidades), o transitar  pelas ruas em ônibus e motos  e  as mudanças de emprego promovem encontros imprevisíveis, algumas vezes  inusitados, dos quais sua veia de escritora e sua alma de humanista se aproveitam para colher informações e sedimentar aprendizagens pelas vias da visão e da audição, sentidos  que lhe são exigidos no trabalho de seleção para a escrita. Destaco um trecho de Estevam no céu, onde descreve a morte de um parente:  “Ouvi o choro de desespero de sua mãe. Ouvi minha mãe sobre o choro de desespero da mãe dele. Ouvi meu tio com Alzheimer chorando pelo choro da mãe de Estevam. E ouvi o choro de minha avó pelo choro de meu tio com Alzheimer.” Quem nunca assistiu a uma si
tuação como esta, quando a dor de um é compartilhada por seres compassivos?  
 
Mortes, doenças e lutos, junto à vida que corre incessante como o sangue nas artérias,  fazem parte deste livro que, como outros de crônicas, pode representar parte de nossa própria existência refletida num conjunto de cotidianos. E a infância resgatada sem chá de tília, apenas porque se deseja mesmo fazer este trajeto de volta ao que não é mais possível acessar senão pela memória, garante momentos líricos e delicados, onde o tom telúrico se timbra em alguns instantes com a cor da inocência. 
 
Ao usar a palavra trajeto, ocorre-me que ela é a chave para definir o livro ao qual a autora deu o nome de "O contorno de minhas artérias". A linha imaginária que costura a coletânea de textos é traçada  pelas dimensões, surpresas, sustos,  perigos  e descobertas  que todo trajeto traz em si. O que Isabel Fogaça percorreu  no seu curto tempo até aqui, pois acaba de completar 25 anos, foi concluído com  o  mestrado e sua decisão de voltar à terra natal.  O que ela  empreende agora é representado pelo desejo de escrever e publicar. Aquele foi  um trajeto concluído. Este pode ser uma trajetória que começa. Pois vejo nas crônicas um embrião de contos, gênero que será, com certeza, a próxima parada de Isabel Fogaça, que gosta de “assistir ao arrastar do tempo rabiscando rugas nos olhos das pessoas, ou apenas registrar o cotidiano em linhas tímidas nas mais diversas situações, nos ônibus também.”
 
"O contorno de minhas artérias" pode ser adquirido pelo site  http://site.editorapenalux.com.br  

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