COFRE

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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O porquinho de cerâmica enfeitava a mesa da sala, ao lado do caramujo.
 
Era disforme: quase redondo e focinho exagerado. O defeito estava na cacunda – uma fenda estreita por onde, esporadicamente, a mulher enfiava moedas.
 
Os filhos acreditavam na mãe, no argumento de que a gordura do bicho decorria do alimento que ele engolia.
 
Um dia – faz tanto tempo -  a mãe fez de conta que esbarrou no porquinho, ele caiu da mesa, virou caco só. Um montão de moedas forrou o chão. A mulher, como se catasse piolho na cabeça da caçula,  uma a uma recolheu as moedas num lenço. Levou a pequena fortuna lá na Casa Buri, comprou um retalho de pano, fez camisa para o menino.
 
O pai saiu mais cedo do serviço, levou o filho lá na Alfaiataria do Antunes, na Rua da Estação. O homem grandão tirou medidas, explicou a forma de pagamento, a quantidade comprida de prestações, mandou buscar o paletó no sábado. Na volta, entraram na loja do Gustim Fanan, perto da Igreja São Sebastião. 
 
- Tá muito grande, pai.
 
- É assim mesmo. Seu pé vai crescer...
 
Quando saíram, o moleque levava nas mãos seu primeiro par de sapatos.
 
No sábado à tarde, sapato novo, camisa nova, paletó, o garoto enfrentou pela primeira vez a máquina do Jair Fotógrafo.
 
Toda aquela despesa fora feita porque o moleque fora aprovado no exame de admissão ao ginásio, iria estudar no Instituto de Educação Torquato Caleiro. E, para fazer a matrícula, precisava levar dois retratos. Como o fotógrafo só tirava meia-dúzia, deu um para a avó Sianinha, outro para mãe. Guardou os outros dois retratos tamanho três por quatro.
 
Hoje um homem velho examina aquela fotografia e se vê diante de uma criança de treze anos, de cabelos crespos, mais castanhos que pretos. A cara revela a expectativa de toda criança à espera do flash da máquina, remoendo o medo de piscar, de desobedecer as recomendações do homem cuja cabeça se esconde por detrás de um pano preto.
 
Os olhos do velho ficam embaçados, não mais enxergam nem os azuis, nem os verdes que aquela cabecinha porventura idealizava. Não enxergam, não distinguem que raízes brotaram daquele cofrezinho vivo tão sistematicamente alimentado pelo pai, pela mãe.

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