Negócio é negócio

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Negócio é negócio, inclusive aqueles voltados para atender às demandas da morte e conseqüentes despedidas, nos conformes com as peculiaridades que cada cultura determina. 
 
Empresa inglesa especializada em cerimonial fúnebre promete pompa e circunstância através da oferta de elementos sofisticados, tanto para as cerimônias de despedida, das mais simples, quanto para as mais sofisticadas, em atendimento às exigências  da família, ou às recomendações deixadas pelo próprio falecido. Pode-se planejar o próprio funeral. 
 
No caso, o pacote começa pelo Mestre de Cerimônias, representado pelo senhor de casaca, cartola e bengala, gravata preta e ar compungido da foto de divulgação da empresa. No derradeiro desfile pelas ruas, ele vai à frente da carruagem aberta, puxada por parelha de cavalos pretos, lustrosos, com penachos pretos e roxos encaixados no meio da viseira. Os animais têm o dorso coberto por manta de veludo preto, com cruz de cetim roxo à guisa de enfeite. Franja de cetim dá o acabamento. A carruagem tem vidros laterais, o que permite ver o caixão que transporta. Sobre a capota da carruagem, flores, muitas flores.
 
O cocheiro, bastante paramentado, usa casaca, cartola e luvas pretas. A moça faz parte da entourage. No corso, do local do velório ao do sepultamento, ela fica atrás do mestre, com as mãos cruzadas na frente do corpo, olhando para o chão. Os outros dois senhores que aparecem na foto,  à porta da loja, não fazem parte do pacote, são vendedores da loja, chamada Funeral Directors. Certa vez cruzei com séquito semelhante. Parei, olhei os detalhes, até reverenciei o falecido, ou falecida que nunca vi em vida. Mas fiquei ali, estacionada, fascinada, esperei o cortejo passar, não sei se eram as últimas homenagens para mulher ou homem, deduzi que era pessoa de idade avançada, a julgar pelos acompanhantes, embora estivessem dentro dos carros, todos pretos. Algumas mulheres usavam chapéus, com véu escuro sobre os olhos. Praticamente todos usavam óculos escuros e ninguém deu um sorriso. O mais significativo, para mim, foi o silêncio que pairou na rua, naqueles momentos enquanto a procissão fúnebre passava.  O tráfego normal de carros parou; os transeuntes emudeceram,  não se ouviu uma buzina sequer, as bicicletas silenciaram, nem as crianças fizeram qualquer barulho. O vento parou. 
 
A morte, de quem quer que seja, provoca-nos estranha sensação de impotência e inexorabilidade, pois nos faz encarar nossa própria finitude.  Talvez por isso, a exigência das pompas e circunstâncias nas derradeiras despedidas: já que temos que ir,  que seja com glória, magnificência e resplendor.  

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