Intolerância Religiosa

Por: Roberto de Paula Barbosa

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No início de novembro do ano de 2016 realizou-se o ENEM, cuja prova de redação foi “Caminhos para Combater a Intolerância Religiosa no Brasil”. Meus filhos imaginam que sei escrever, talvez por ter algumas crônicas publicadas, então me desafiaram a penejar sobre o tema. 
 
Realmente eu não sei qual o caminho para combater essa intolerância, pois minha afinidade com a religião é muito tênue. Acredito que o assunto deva ser tratado juntamente com as primeiras letras das crianças nas escolas, através de professores altamente preparados e que transmitam àquelas a existência de inúmeras religiões e cultos pelo Brasil, para que elas façam sua escolha. Sei que isto é utópico, pois algumas crianças, que têm uma família estruturada e adepta a alguma religião, já vem com os primeiros sinais da fé de seus pais, o que é muito bom, desde que ela tenha liberdade, mais tarde, de fazer sua opção. Infelizmente, nos dias atuais, o que vemos, em grande parte, são famílias desajustadas e que não têm tempo para educar seus filhos, deixando essa atribuição ao Estado.
 
A maioria das escolas tem em sua grade curricular o ensino religioso, mas, de modo geral, as crianças são direcionadas a assimilar o Cristianismo, que predomina em nossa cultura. Sabemos, no entanto, que há uma infinidade de crenças, cultos, religiões e igrejas com matizes, nuances e tonalidades, que deveriam ser divulgadas para que seja uma escolha e não uma imposição, inclusive a de não ter uma religião ou simplesmente não acreditar em um ente superior.
 
Nossa intolerância está arraigada desde nossa colonização com a catequização dos indígenas que tinham sua própria cultura, desmaterializada pelo proselitismo dos primeiros jesuítas. Enquanto tivermos pessoas ou entidades que imaginam ser a sua crença a mais perfeita, a mais justa e superior a qualquer outra, querendo impô-la a qualquer custo, nunca teremos paz no âmbito religioso.
 
Eu mencionei no início desta que minha relação com a religião é tênue, pois, quando criança, tive algum sobressalto; quando adolescente sofri algum tipo de assédio; agora, adulto, consigo ser exigente, graças às muitas leituras (leio até bula de remédio), seletividade e, principalmente, muito pensar, tenho tentado seguir os bons ensinamentos ditados pela ética, pela moral, pelos bons costumes, pela sabedoria, e, especialmente, pelo amor às pessoas, aos animais e às plantas.
 
Seria cômico, se não fosse trágico: quando eu era criança de uns 5 a 6 anos, era costume na pequena cidade de Franca, os padres andarem pelas ruas trajando suas batinas. Minhas tias e primas mais velhas diziam-me que os padres usavam aquelas saias compridas para capturar as crianças arteiras, colocando-as sob elas e arrastava-as para um internato, de onde jamais sairiam. Certa feita, eu que não era anjo, brincava nos fundos do quintal de minha casa, quando minhas tias chamaram-me até o portão da rua para ver uma coisa; assim que cheguei, olhei para um lado, e quando olhei para o outro, um padre já estava a poucos passos de onde eu estava; soltei um grito de terror e, num átimo, estava em baixo da cama de meus pais. Só fiquei sabendo depois que minhas tias tiveram que explicar ao padre, sem muita convicção, o motivo de tal estardalhaço, pois o mesmo era do tipo “deixai vir a mim as crianças”.
 
Quando adolescente, no ginásio, tínhamos um professor que era muito carola e resolveu fazer uma excursão ao seminário de Brodowski com toda a classe. Além de pagar o rateio do ônibus deveríamos levar duas latas de óleo para doar à cozinha daquela escola. Quando levei a alvissareira notícia a meu pai, quase levei umas boas chineladas. Meu pai, sendo filho de um kardecista que dirigia um centro espírita, trabalhando de sapateiro, com dificuldades financeiras para manter sua esposa e filho, gastar dinheiro para doar latas de óleo para futuros padres era o cúmulo do esperdício. Logicamente não fui e tive que estudar dobrado para passar de ano, pois o professor foi implacável em sua avaliação sobre meu comportamento e aplicação. Não guardo mágoa, pois graças a ele ainda conservo bons conhecimentos de química.
 
Atualmente vemos “igrejas” para todos os gostos, algumas explorando sistematicamente os seus adeptos, que são fascinados  pelos seus pastores, e não conseguem enxergar um palmo diante do nariz.
 
Numa pequena pesquisa na internet consegui localizar mais de 30 denominações para religiões ou crenças e, creiam, cerca de 130 nomes para igrejas e templos, tais como:
 
- Assembleia de Deus Pavio Que Fumega;
 
- Igreja Evangélica Jesus é Lindo e Cheiroso;
 
- Associação Evangélica Fiel Até Debaixo D’Água;
 
- Igreja Jesus Tá Aqui O Diabo Mete o Pé;
 
- Igreja Batista Da Velhice Tranqüila (assim mesmo, com o trema); e muitas outras.
 
Se eu tivesse que escolher uma, esta última seria a eleita.
 
 

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