Manhã de dezembro

Por: Sônia Machiavelli

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Então acordo,  percebo que amanheceu pela luz que atravessa a cortina, sinto o ar fresco entrar nos meus pulmões. Mexo  aliviada mãos e pés porque a partir de certa idade é maior a probabilidade de algum coágulo se soltar e entupir uma artéria; ou o sangue sair de seu trajeto corriqueiro e se derramar calamitoso. Muitas vezes é durante a noite que isso acontece e é no despertar (ou não) que os danos se revelam. Toc, toc, toc! 
 
É manhã de sexta-feira, primeiro dia do último mês do ano. Continuo  viva, aparentemente  sem  lesões, a não ser as crônicas com as quais aprendi a lidar. Dou graças por isso e me preparo para sair de casa.  Na cozinha, enquanto tomo o primeiro café, e sinto seu aroma, um dos prazeres do dia, a funcionária que me aguenta há 15 anos  se queixa de que teve de baixar no hospital por conta de intoxicação alimentar. Comeu torresmos e não tem mais vesícula para ajudar a digerir gorduras. Eu a ouço e a aconselho com minha cultura de algibeira.
 
Na garagem entro no carro, dou partida. E olho com cuidado pelo retrovisor,  pois muitas crianças estão sempre correndo pela calçada. Algumas são pequeninas e a consciência disso  me coloca em estado de pleno alerta. Lembro-me de um amigo que há muitos anos ao dar ré atropelou o próprio filho e nunca mais foi a mesma pessoa. Depois de me certificar de que o caminho está livre, saio, mesmo assim com cuidado, buzino e olho,  buzino de novo, até deixar o condomínio. 
 
Carrego a imagem de Elza me contando seu incômodo  e a de meu amigo  protagonista de tragédia que nunca virou passado. Passo por um ponto de ônibus e vislumbro  a mulher de vestido vermelho que segura a filhinha de cabelos pretos, cabeça  derrubada num visível estado de prostração. Sigo pensando como será o dia daquela mãe, daquela menina doente: terão um plano de saúde? vão buscar assistência pública? Estou imersa nesses pensamentos quando  à minha  esquerda, num declive,  um ciclista voa e por um triz não bate na camionete que passou por mim em alta velocidade também. A vida parece valer pouco para eles, reflito sem entender bem o que poderia justificar tanta pressa. Nos tempos de antanho, quando os instrumentos de punição eram outros, alguém  poderia dizer que iriam tirar o pai da forca. Verbalizar essa imagem  para meu neto de sete anos  lhe soaria engraçado ou  bizarro, reflito e rio. Que forca é essa, vovó? Há palavras e frases que traem a idade, desvelam de repente  um mundo velho que ficou para trás feito casca de cigarra. 
 
Enquanto divago, trafego  carregando na mente Elza e sua dieta, a fragilidade das crianças, o amigo que envelheceu angustiado, a mãe com a filha doente, o ciclista que arriscou a vida a troco não sei de quê.  E então, ao entrar na  segunda  avenida, meus olhos reencontram  o homem idoso na cadeira de rodas. Ele  fica na calçada vendo a vida passar, enquanto toma o sol da manhã. Eu o vejo, ele me vê, paira entre nós um cumprimento tácito. Que bom não estar chovendo, ele deve avaliar, pois quando os dias são chuvosos precisa ficar no alpendre . Avanço com essas imagens e a duas quadras um estranhamento se apossa de mim. Não diviso no semáforo,  com certeza o mais lento de Franca, o homem magro, alquebrado pelo tempo e pelas  doenças, amparado numa muleta, aparentemente cego de um olho e com a mão estendida para nós, motoristas que ali paramos enquanto o verde demora  a nos liberar. Sua ausência me aflige porque  não indicia coisa boa. Será que piorou e não mais conseguiu se arrastar até seu ponto de pedinte? Será que morreu? 
 
O vermelho se apaga e engato a primeira  preocupada com o homem que sumiu do semáforo, passo à segunda com o ancião na cadeira de rodas, na terceira resgato  o ciclista que quase se espatifou na minha frente; o semblante preocupado da mãe no ponto de ônibus; a agitação das crianças; a eterna  culpa que corroeu a vida de meu amigo; os transtornos  de  Elza. A eles se juntam  agora os  moradores da praça  malcuidada inserida no meu caminho. Enrolaram seus precários colchões e já começam a pedir dinheiro para o vício.
 
Achando que estou um tanto melancólica, chego ao meu destino, estaciono junto ao meio-fio, desço do carro, caminho pela calçada com a firmeza que o solo conhecido  e o  tênis de boa marca me garantem. Mas, de repente, piso num buraco encoberto  por pedaço de tábua que cedeu à chuva da noite. Caio, mas me levanto logo, ajudada por mão solidária. Percebo que foi só susto, não fiquei  ferida, o pé não parece destroncado,  dor nenhuma me incomoda,  só a pele do tornozelo se mostra ralada. Isso  há de ser nada, logo hei de esquecer o vexame da queda.  Volto a caminhar sob a expectativa de não encontrar outros desvãos, mas tenho consciência de que  tudo pode acontecer, não  há certezas no mundo, a não ser aquela, única. Toc, toc, toc ... 
 
São oito horas da manhã, mal saí de casa e tantos seres me povoam, se condensando e me mostrando que, se a vida é difícil para todos, para muitos ela se apresenta  bem cruel  nos seus caminhos quase incontornáveis. Genética, educação, cultura, sociedade, circunstâncias, azares, preconceitos, tantas coisas e mais o imponderável vão se somando  para perfilar a existência  e definir a capacidade de cada um em resistir aos desafios do cotidiano.  Porque a  vida é isso: resistência e condição de se reinventar. Como diz minha sábia analista, “há sempre alguma faceta nossa necessitando de restauro”.
 
É nesse momento que  me lembro do ipê pelo qual passo todos os dias. Ele estava por inteiro amarelo em agosto, perdeu todas as flores  em outubro, ficou nu em meados de novembro, e agora  cobriu-se todo de folhas escuras, para continuar  cumprindo seus ciclos. Eu o aplaudo na imaginação. Ser urbano, reverencio a  criatura vegetal , plantada na calçada irregular pelas mãos de um anônimo de quem nunca se saberá o nome e que talvez sequer a tenha visto florir. 
 
Somos assim, como os ipês, imagino.  Sujeitos às mudanças sazonais, às intempéries, aos fatores endógenos e exógenos. Um dia  cai o raio, o machado chega, a foice aparece. Mas entre a semente  e a última florada, muitas coisas acontecem. Fora de nós e dentro de nós, tudo ao mesmo tempo. Quem disse que a realidade é linear?

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