Bom dia amanhã

Por: Isabel Fogaça

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Meu amor, hoje eu rasgo o meu diploma de historiadora, e esqueço todos os meus estágios em catalogação de itens museológicos para escrever sobre o nosso futuro. Nele, em curta dimensão, não vejo a preocupação com os recursos do concurso público, com conflitos do dia-a-dia, com as angústias do passado. No macro, os seres humanos não estão fadados ao insucesso do neoliberalismo e da globalização, não há devastação de florestas, nem falta de água e mantimentos como você imagina. Não há extinção de gorilas, de saguis, ou de muriquis.
 
No futuro, Little Wing vai ser a nossa música, e nós sairemos num carro popular sem ar condicionado, com os vidros abertos em alta velocidade; a conta do Spotify estará em dia, as canções podem ser tocadas sem propagandas. No banco de traz apenas umas caixas de livros de minha autoria enrolados por fita adesiva. Sei que combinamos roubar um banco e viver princípios anarquistas à base de frutos e legumes orgânicos; sei que tudo o que a gente acredita vai contra o sistema, e que viveríamos muito bem apenas com um colchão, as galinhas caipiras, a nossa frigideira antiaderente, e todo esse brilho que a gente leva dentro do globo ocular.
 
Quando estivermos vivendo esta fase, lembrarei perfeitamente do ontem; do momento exato que você me disse: "Vamos dar um jeito para viver os seus sonhos". 
 
E da mesma forma, eu estarei ao seu, vivendo os seus.

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