PRESENTE

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Bom dia para quem ainda não está preso, como diria o Macaco Simão; bom dia para quem nunca pagou uma propina para o guarda não lhe multar; bom dia para quem nunca comprou um “pen drive” com 1350 músicas gravadas pela bagatela de R$ 30,00, ou baixar uma cacetada de músicas na internet; bom dia para quem nunca alterou o receptor de TV a cabo para assistir mais de 700 canais pagando a assinatura básica; bom dia para quem nunca estacionou em lugar reservado para cadeirantes, idosos, parada de ônibus, estacionamento proibido, etc; bom dia para quem sempre devolveu o troco recebido a maior; bom dia para quem não passou os pontos da CNH para outra pessoa; bom dia para os médicos que nunca assinaram um atestado médico em branco para a secretária preencher na hora; bom dia para quem nunca furou uma fila; bom dia para quem nunca comprou recibo para abater na declaração de renda; bom dia para quem nunca cometeu qualquer ato que sabe não ser o correto, mas que todo mundo faz.
 
Diante de tantas notícias de corrupção eu me policio para ver se não caio numa tentação qualquer, embora, neste país, parece que tudo funciona com o inevitável jeitinho brasileiro, estimulando quase todos levar alguma vantagem, por menor que seja.
 
Mesmo assim, rebobinando a fita de minha memória – pois é, minha memória ainda está numa fita – lembrei-me de certa vez - lá se vão meio século - quando trabalhava em um banco na cidade de Umuarama, no Paraná, próximo às festas de fim de ano, um cliente nos ofereceu uns presentes, uma leitoa para o gerente, uma para o chefe da Carteira Agrícola e uma para a turma de solteiros. Naquele tempo não considerávamos como propina um presente dado de boa vontade por um cliente, pelo bom atendimento prestado durante o ano.
 
A república onde os solteiros morávamos, era uma casa de madeira, assoalhada, construída sobre colunas do mesmo material, deixando sob a mesma uma espécie de porão com a altura média de uns oitenta centímetros; este vão, para evitar a entrada de animais, era cercado por uma grade de ripas e tinha apenas um portãozinho de acesso.
 
Na sexta-feira, após o término do expediente e fazer a nossa tradicional parada no Bar do Português, chegamos a casa, esperando encontrar a leitoa já temperada e pronta para assar, mas, para nossa decepção, não havia nada disso. Logo em seguida a vizinha veio nos avisar que uma pessoa trouxera três leitoas e, como não tinha lugar para guardá-las, colocaram-nas sob a casa. Quando descemos para ver, realmente havia três bacorinhos completamente livres e correndo dentro do cercado. Com caras de patetas olhamo-nos perplexos e ficamos algum tempo sem reação, imaginando o que faríamos com tais bichos. A primeira providência foi avisar os outros agraciados para virem buscar seus brindes, logicamente omitindo que os presentes corriam, respiravam e grunhiam. O mais difícil nesta história toda, foi conseguir pegar os bichos sob a casa e nós, andando de cócoras ou engatinhando, não tínhamos a agilidade que eles tinham, pois corriam e driblavam mais que um exímio jogador de futebol. Imaginem a situação lastimável das roupas e calçados, além das escoriações que os tombos nos proporcionaram, na vã tentativa de alcançar os nossos brindes, que já estavam há bastante tempo sob a casa, fazendo uso de todo o espaço como um perfumado banheiro.
 
Graças ao nosso colega João Antônio, que fora criado na roça, na manhã seguinte, bem cedo, com a colaboração de todos, finalmente foi imolado o nosso presente grego de Natal.

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