Há 25 anos

Por: Mario Eugênio Saturno

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Desde criança, eu sonhava com um Brasil melhor, porém, na verdade, eu não sabia o que era esse melhor. A referência viria quando integrei a equipe de lançamento do Satélite de Coleta de Dados, SCD-1. Durante o mês de novembro de 1992, morei em Lancaster, estado da Califórnia, próximo a Los Angeles, e trabalhávamos na NASA, dentro da Base de Edwards, deserto de Mojave. 
 
Eu dirigia pelas ruas e estradas da Califórnia, como víamos nos filmes. Tinham sinaleiros sincronizados por quilômetros, ou diríamos, milhas. Nas estradas, para Lancaster, os caminhões têm sua estrada, os carros outra. Acompanhando as vias, lá estavam os rios artificiais que transformaram a seca Califórnia naquilo que conhecemos. Era fácil ver, onde havia humanos, era verde, onde não, a secura dos filmes de bang bang. 
 
Nas ruas, a sinalização tinha as suas curiosidades, nos cruzamentos, o “pare” era para todos, e funcionava a regra de ouro: “o primeiro que chega é o primeiro que vai”. O preço da gasolina era e é de deixar um brasileiro boquiaberto, menos que a metade que pagamos aqui. Assim como os carros, metade do preço do carro brasileiro mais barato, “pelado”, e aqueles tinham direção hidráulica, câmbio automático, ar quente e frio, etc. No deserto, o conforto é essencial, qualquer deslize é morte certa. Um grupo perdeu-se no deserto à noite, foi por pouco. 
 
Naquele deserto, via-se o incrível, aproveitaram o terreno para instalar gigantescos moinhos de vento que geram eletricidade. Mas o mais surpreendente eram as lojas de departamentos. Ao entrarmos em um “mart”, os colegas estavam combinando ficar lá duas horas e meia. Protestei veemente, odiava “supermercados”. Decidiu-se por uma hora e meia. Entrei na seção de calculadoras e produtos eletrônicos. Mama mia! O tempo estava acabando e eu tinha uma enorme loja ainda para ver. Resultado? Tive que procurar um por um e propor ficar mais uma hora lá. Bem, tive que ir muitas vezes para cobrir tudo o que havia. 
 
E os supermercados? Imensos, limpos, bonitos, com frutas e verduras de excelente qualidade. Não se precisava escolher a maçã, todas eram boas. Um dia vi uma cena que explicou: um empregado de dois metros de altura, forte, provável levantador de pesos, retirava as maçãs da caixa, uma a uma. Ao contrário, por aqui, o empregado vira a caixa e danem-se as maçãzinhas. 
 
Dizem que os norte-americanos não tratam bem os estrangeiros, não é verdade! Estavam sempre receptivos e interessados. O Brasil era conhecido pelas armas de boa qualidade. Naquele tempo... De fato, resolvi visitar a seção de armas e lá estavam os nossos “trabucos” exibindo sua altivez. 
 
A estática é um perigo para foguetes. E como eu era o que tinha a pele mais seca e produzia mais faíscas, puseram a técnica de segurança na minha cola. Resolvi testar minha eletricidade uma noite fria, saí do carro sem tocar na lataria e segurando a chave aproximei do carro, há um centímetro, uma faísca pulou dos meus dedos adormecendo-os e fazendo- me pular longe. Não foi só o choque elétrico, mas também cultural e econômico. 

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