Nascer

Por: Sônia Machiavelli

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Nenhuma fonte histórica ou religiosa afirma que Jesus Cristo nasceu em 25 de dezembro, dia em que os cristãos, 1/3 da humanidade, comemoram o Natal. É uma data que começou a ser timidamente celebrada quando o imperador Constantino  a fixou no ano 330, baseado provavelmente  em  muitas  tradições populares. Como festa religiosa foi instituída vinte e três anos depois por um Papa chamado Liberius. Mas havia certa confusão com outras celebrações pagãs que  coincidiam  no hemisfério norte com o solstício de inverno. Então  outro imperador,Teodósio, tornou o Natal exclusivamente cristão em 425. Justiniano legalizou a festa em 529. Foi por este tempo que surgiu a ideia de celebrar a missa do galo, à meia-noite.  
 
O presépio, a maior das referências do período natalino, só passou a existir sete séculos depois, a partir de 1223, quando Francisco de Assis, em lugar de festejar a noite de Natal na igreja de Greccio, como era costume, reuniu figuras  humanas em argila, tamanho natural,  e levou-as para a área rural, ali mesmo no Lacio.Colocou uma manjedoura. Dispôs ao redor animais domésticos. Explicava assim  aos camponeses a história do nascimento de Jesus. Como a língua litúrgica era o Latim, aquela gente simples não conseguia entender com clareza o Natal dos ofícios religiosos. De forma didática e estética, Francisco de Assis mostrou a eles o que haviam escrito Lucas e Mateus. Ou seja, aquela  encenação retomava a narrativa de mais de mil anos, quando, por conta do rescenseamento de toda a Galileia, o carpinteiro José e a Virgem Maria dirigiram-se a Belém, nas  imediações da Judeia. Como não encontrassem lugar para se hospedar, e Maria começasse a sentir as dores do parto, refugiaram-se numa gruta onde Jesus nasceu. A 
criança  foi envolta  em panos e deitada  numa manjedoura. Logo depois, reconhecida por pastores vindos do Oriente como o Messias (o enviado por Deus), tema de longa tradição judaica. Estes pastores eram os Reis Magos- Baltazar, Belchior e Gaspar, que ofereceram ao recém-nascido  ouro, incenso e mirra, presentes simbólicos.
 
O cenário, chamado desde o primerio momento presepium (no latim curral, estrebaria) pelo santo ecologista, inspirou as pessoas que o viram e no ano seguinte começaram a montá-lo com seus próprios recursos. E isso é até hoje muito bonito de se ver: a condição que tem, como toda manifestação também lúdica, de percutir junto com os sentimentos, a cultura.  Adoro presépios. Quando viajo e encontro museus especializados, não perco a oportunidade de conhecê-los. Já vi um montado em casca de ovo. E outro gigantesco, que ocupava 1/3 de uma igreja. A Itália oferece belos exemplos. Portugal também. No Sul e no Nordeste  brasileiros pude ver alguns bastante sugestivos pela peculiaridade.Gosto deles como obras de arte. Mas principalmente por conta do simbolismo que não se perdeu ou não se confundiu com outras manifestações que nada têm em comum com a mensagem maior do Cristianismo, a  fraternidade. Enxergo neles sobretudo a possibilidade de pertencimento a um reino onde amor, respeito e cuidado conosco, com o próximo e a  natureza firmam-se como valores maiores.
 
Pinheiros enfeitados, bolas coloridas, a simpática figura do Papai Noel, presentes lindamente embalados, guirlandas nas portas, vasos com bico-de-papagaio, ceia com peru, rabanada na sobremesa? Gosto também, mas acho que já  perderam o valor metafórico. Ficou só a forma, o fundo se esvaiu. Fico então com o presépio. E com a lição que nos legaram Lucas e Mateus, os únicos que narraram o nascimento do Menino Jesus. Eles não dataram o acontecimento.Talvez para nos sugerir que Natal, palavra radicada no verbo latino nascor, nascer, pode ser qualquer dia. 
 
Nascemos a toda hora. Quando assumimos responsabilidade com nossa existência; adentramos diferente realidade superando medos; passamos por grande dor e ainda assim persistimos no viver (porque outros precisam de nós); reconhecemos o ponto de vista alheio, oposto ao nosso; saímos da versão confortável e nos dispomos aos desafios com que somos confrontados; aceitamos que estamos no mundo não para permanecer, mas para mudar; percebemos que o novo ressignifica nossas vidas; e quando nos vemos imperfeitos e por isso perdoamos a nós e aos que nos têm ofendido.
 
Nas entranhas da Normandia, região do norte da França, mantém-se costume muito antigo no dia 25 de dezembro. Assim que amanhece, as pessoas procuram aqueles a quem ofenderam durante o ano e pedem desculpas; só depois vão cuidar do almoço festivo.  Acho que esse é o genuíno espírito do Natal.  

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