Insônia

Por: Maria Luiza Salomão

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Sempre me gabei de não sofrer - (é mesmo um sofrimento!) - de insônia. Deito e durmo. Acredito no fluxo do sono que me transporta para outro lugar, para outro tempo – lunar - para as minhas profundezas, das quais sempre tive fé de retornar forte, e com nova visão do que vivo – solar - no dia a dia bruto que temos todos de enfrentar. 
 
Mas não consegui dormir de domingo para segunda.  Acordei, neste domingo fatídico, às sete e pouco da manhã, ao fazer o café,  com a notícia de um acidente horrível com jovens (tão jovens!), universitários, recém comemorando suas entradas em novo ciclo de vida. Três mortos, dois sobreviventes!  
 
Meditei o dia inteiro sobre eles. Café da manhã, almoço, tarde toda, e, por fim, à noite: um documentário sobre a guerra no Iraque, onde tantos jovens morrem, muito jovens, muitas crianças morrem, os sobreviventes não esquecem, não esquecerão. Uma coisa difícil de entender, acidentes, guerras. E acontecem todos os dias. 
 
De tardezinha converso longamente com a minha filha, em outro ciclo de vida, dona do seu nariz, trabalhadora do Brasil, para sabê-la viva, solar e lunar. Tarde da noite, consigo uma resposta do filho, autônomo, já formado, trabalhador também, mas que, vez por outra, sai do meu radar. Os dois morando há tempos em São Paulo.  
 
O pai de um dos sobreviventes deste acidente que tanto me abalou, tinha um app que localizou o celular do filho acidentado, e, talvez por conta disso, hoje sobrevivente. Fiquei pensando que nunca quis acessar onde estão meus filhos, com medo de ser intrusiva, identificada com o desejo de autonomia tão caro aos adolescentes. Lembro-me bem que não gostava de ter meus pais na minha cola. Mas, ai! Agora mãe, eu quero, eu quero, eu quero. 
 
Tenho que ter permissão deles, hoje, não sei se terei. Briguei feio, teclando, com o filho desaparecido. Por que desaparece, em tempos tão bravios como os de hoje? Por que não pensa em mim? 
 
Mas não tenho moral alguma. Já fui como ele, me julgando imortal, acreditando que meus pais não envelheceriam, que pudessem ser deuses astronautas, prontos para todas as viagens, como tripulação para voos altos e infinitos. Não posso exigir: fui uma adolescente assim, me julgando capaz de governar meus gestos, minhas intenções. 
 
Sobrevivi à minha adolescência. Penso nisto, agora, como psicanalista: é milagroso sobreviver á adolescência, em que tantos impulsos primitivos e infantis desgovernados têm o poder de se tornarem atos irreversíveis. 
 
Corremos riscos, como pais, de sofrer a pena de perdê-los, de um momento para outro. Ao acaso, sem previsão, sem pista, sem sinal de que o abismo beira, sombrio, negro, incógnito, enigmático, paralelo à estrada ensolarada e cheia de vida, trilhada pelos nossos filhos. 
 
A vida é esta estrada e suas bifurcações. Sem rede de proteção, sem blindagem emocional para ninguém, nem pais nem filhos. Não temos como viver a vida dos filhos, nem suas mortes.  Trocaria de lugar com eles imediatamente, no encontro com a Inelutável, se ela facilitasse. Já vivi tanto, já provei do pior e do melhor de muitas estradas eleitas, e outras nem tanto.  
 
(Deixe, Indesejada das gentes, que eu vá primeiro, antes deles! Deixe, Dama Sombria, que meu sol se apague, minha estrada se feche, que eu voe para as nuvens, antes deles. Deixe que eu morra, para que eles vivam) 
 
Como Maria suportou a morte do seu filho Jesus, na cruz? Que tanta fé na ressurreição?  Como pôde carregar a cruz junto com ele, como não desmaiou aos pés da cruz, como ela sobreviveu? 
 
O nascimento anunciado pelo anjo Gabriel foi aviso de morte: Maria aceitou. Maria não poderia imaginar a dor que sofreria, poderia? Poderíamos? Teríamos filhos? 
 
Não sei quando voltarei a dormir bem de novo. Escrevo no assombro de acordar para o pesadelo.  A vida é este perigo, este risco, de êxtase e inferno. Inferno é morada dos mortos, por muito tempo os pais que pranteiam os filhos (Príamo, que pranteia o valoroso Heitor), habitam o Hades.   
 
Como não sentir, no imo do peito, a dor dos pais que perderam seus filhos?  Eu sei, todos sabem: algo morre dentro da gente, quando jovens assim saem das nossas vidas, ao inverter o ciclo vital natural.
 
Aquiles, que escolheu morrer jovem e na glória, do que anônimo e sem glória, era vulnerável. Não sabia, o semideus (jovens são todos semideuses) aonde se alojava sua vulnerabilidade. Quase nunca sabemos das nossas mortíferas vulnerabilidades. Nem mesmo na maturidade.
 
Ser pai e ser mãe é se tornar, imediata e inexoravelmente, vulnerável. Eu sou: estou insone.    

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