DEU BODE

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Parece que ninguém julgava aquilo um exagero. Mas era. A criança saía da escola primária, acostumada à presença do mesmo professor por todo o ano letivo. Bruscamente, tudo mudava. Na primeira série do curso ginasial, ela tinha de conviver com número assustador de professores e matérias: Aritmética, Língua Pátria, História do Brasil, Geografia do Brasil, Geografia Geral, Francês, Inglês, Trabalhos Manuais, Música, Educação Física...
 
O menino Osvaldo descobriu logo que, em sua classe, ele e apenas mais meia dúzia de colegas procediam de famílias muito pobres. Eram filhos de trabalhadores braçais, de lavradores, de barbeiros... Tais crianças sequer conheciam a existência de cursos de línguas estrangeiras, jamais haviam sonhado aprender, em Conservatório Musical,  a tocar piano ou saxofone. No entanto, a professora de música parecia desconhecer o que fossem diferenças sociais. Entrava e saía da sala solfejando, desenhando na lousa as notas do, ré, mi, fá sol, lá, si... e dispondo-as na clave de sol – um desenho que parecia cavaquinho em pé. Certamente nunca desconfiou que aquela linguagem era exótica para algumas crianças, mais difícil que a imaginada fala dos marcianos – sabe-se lá por que, tema então recorrente inclusive na música popular (Marcianita).
 
A norma gramatical era trilha difícil de percorrer por filhos de analfabetos cuja prole vivia e convivia num universo cultural e linguístico  muito específico. Todavia, terror real eram as veredas estrangeiras. O estudante desavisado tropeçava nas esquisitices.
 
- Por que que tenho que escrever  i  e ler  ai? Life vira laife.
 
No segundo mês o professor Nicanor leu uma vez, mandou traduzir em casa o texto do livro didático: The Human Body.
 
O mestre já ensinara os dias da semana, o moleque ainda estava empacado no Monday e já vinha nova lição. Pediu ajuda ao colega do lado.
 
-Que que é isso
 
- Isso o quê?
 
- Essa lição... como é que fala na nossa língua?
 
- Ah, isso aqui? É fácil. A tradução é simples: O bode humano. Fala de um monte de bichos... 
 
Na aula seguinte, deu bode.
 
- Osvaldo, fez a tradução?
 
- Mais ou menos. O pai me ajudou sobre carneiros e cabritas, ticher.
 
- É  teather... teather...
 
- Isso... isso..
 
- Então traduza o texto.
 
- O bode humano...
 
A gargalhada geral disse ao estudante que fora tapeado pelo colega, virara o bobo da corte.

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