Todo mundo e o Carnaval

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Todo mundo já teve bons carnavais.
 
Todo mundo já caiu na farra, cheirou lança, 
todo mundo já teve amores de uma, duas ou quatro noites que foram varridos feito confete.
 
Todo mundo já ficou ridículo fantasiado de pirata, odalisca, 
bailarina ou anjinho, em alguma fase de sua vida.
 
Todo mundo já se levantou da cadeira bêbado feito um perú da Natal 
e foi para o lusco-fusco do salão se esbaldar.
 
Todo mundo já ficou de olho nas cadeiras da mulata roliça e requebradeira.
 
Todo mundo já desejou o estandarte da porta-estandarte.
 
Todo mundo já cobiçou o estandarte, 
o pandeiro e a serpentina alheios durante um carnaval.
 
Todo mundo já pecou em ato, pensamento e ação, 
de todo jeito, 
durante a folia de Momo.
 
Todo mundo já se esfregou nas cinzas de muitas quartas-feiras 
para se expurgar dos maus pensamentos tidos e havidos 
durante os dias anteriores.
 
Todo mundo conhece um monte de crianças
nascidas exatamente nove meses depois 
dos quatro dias alegres e sem juízo.
 
Todo mundo lamenta "naquela hora daquela noite"  de Carnaval não ter feito mais.
 
Todo mundo lamenta "naquela hora" não ter sido possível parar de fazer.
 
Todo mundo tem uma boa história para contar "daquele" Carnaval.
 
Todo mundo gostaria de ter amnésia para apagar aquela história rolada "naquele" Carnaval.
 
Todo mundo lembra o nome do sizudo senhor 
que por trás da máscara feia se esfalfava em quatro noites
e depois passava os outros trezentos e sessenta e um dias, 
com a cara mais feia ainda. 
Sem máscara.
 
Todo mundo se lembra de alguma alegre e extrovertida pessoa, 
que curiosamente nunca foi a um salão ou saiu sambando na avenida.
 
Todo mundo sabe cantar a Jardineira. Do começo ao fim, sem errar.
Poucos cantam o Hino Nacional inteirinho, 
sem hesitar ou confundir 
no Brasil de um sonho intenso,
com o Brasil de amor eterno.
 
Todo mundo morre de vontade de sair na avenida 
quando a escola de sua preferência passa na telinha da televisão. 
Mesmo sem morar no Rio de Janeiro.
 
Todo mundo tem uma escola de samba favorita no Rio, 
mas despreza as de sua cidade.
 
Todo mundo um dia ainda vai compreender 
o que dá no corpo brasileiro quando chega o carnaval.
 
Todo mundo chora de saudades daqueles carnavais, 
quando o máximo do perigo 
era pegar uma gonorréia (tratável com qualquer Benzectacil) 
de alguma colombina 
ou pierrô desconhecidos.
 
Todo mundo morre de saudades dos carnavais do lança-perfume, 
da serpentina,
do confete,
de muita alegria,
de algum dinheiro
e muito menos conseqüências ruins.
 
Todo mundo estranha, 
mas o carnaval faz aparecer riqueza e esbanjamento
incompatíveis com a realidade brasileira.
 
Todo intelectual torce o nariz, 
mas o povão adora ver Globelezas e Cláudias, 
modelos que não desfilam, 
atrizes que não atuam 
exibindo os protuberantes traseiros
 
Todo mundo morre.
E o carnaval fica.
 
 
 
(Texto escrito no último Carnaval do século XX)

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