Mulher extraordinária

Por: Sônia Machiavelli

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Neste carnaval, como no do ano passado, e igual a muitos carnavais do século XX, é bem provável que se ouçam algumas vezes, em rádio ou televisão, os acordes de “Ó Abre Alas”, o marco seminal de um novo gênero, a marchinha, que chegou com tudo em fevereiro de 1899. O carnaval de rua ganhava música, que até então não tinha. A autora? Chiquinha Gonzaga, criadora de mais de duas mil composições. Conta-se que procurada em sua casa, no bairro carioca do Andaraí, onde se encontrava a sede do Cordão Rosa de Ouro, Chiquinha sentou-se ao piano e compôs na hora a melodia, que já tinha letra.Além de artista, ela foi uma das primeiras brasileiras, se não a primeira, a defender publicamente a Abolição, a República e o direito de ser livre, apesar do pertencimento ao gênero feminino. Sua história incomum a insere no rol dos tipos inesquecíveis. Nascida em outubro de 1847, no Rio de Janeiro, foi obrigada pelos pais a se casar, aos 16, com um oficial da Marinha Mercante, Jacinto Ribeiro do Amaral, homem a quem detestava. Teve com ele três filhos: João Gualberto, Maria do Patrocínio e Hilário. Cinco anos depois, saiu de casa e foi morar com um engenheiro de estradas de ferro, João Batista de Carvalho. Durou pouco o romance e, sem meios para sobreviver, ela retornou ao lar paterno.

Se até há bem pouco tempo uma mulher separada, desquitada ou divorciada era olhada de forma torta, imagine-se o que acontecia naquele final de século XIX, cenário monárquico, sociedade extremamente preconceituosa. Uma mulher-largada-do-marido representava anomalia que o pai não suportou. Ele não só a expulsou de casa como renegou oficialmente sua paternidade. Chiquinha deixou com a avó materna a filha, entregou o caçula a uma tia e levou consigo o mais velho. Foi ganhar a vida fazendo o que mais amava: música. Compunha desde os 11 anos.

Claro que deve ter sido muito difícil. Mas parece que além do enorme talento ela possuía o dom de conquistar amigos, e isso a ajudou. Foi um deles, Joaquim Antonio Calado, editor já influente, que a acolheu no meio boêmio carioca e com ela formou dupla, criando peças hoje vistas como precursoras do choro, que não existia como tal. O que imperava era a polca, ainda uma influência europeia, e foi com uma polca chamada Atraente que Chiquinha estreou como compositora. A música fazia parte da opereta Festa na roça, do dramaturgo Martins Pena, fundador da comédia de costumes no Brasil. A peça atraiu grande público e marcou a carreira de Chiquinha Gonzaga. As peças de teatro, uma das distrações da burguesia carioca, necessitavam de boa música e ela sabia compor para ajudar a perfilar personagens e enriquecer a história.

Paralelamente à carreira de compositora e maestrina, ela dava aulas de piano. Trabalhava muito, segundo seus biógrafos, mas ainda encontrava tempo para se dedicar às campanhas abolicionista e republicana. Reza a lenda que vendia partituras de porta em porta e, com o dinheiro obtido, contribuía com a Confederação Libertadora dos Escravos, tendo comprado a alforria de um deles, Zé da Flauta. Na campanha republicana, protestou no palco contra Pedro II, que representava a monarquia; e nesta altura ela já usava seu prestígio para alavancar apoio às causas progressistas. Em 1899, no Brasil republicano, compôs a citada “Ô Abre-Alas”, de letra simples e melodia contagiante. “Ó abre alas/Que eu quero passar/Ó abre alas/Que eu quero passar//Eu sou da lira/ Não posso negar/Eu sou da lira/Não posso negar//Ó abre alas/Que eu quero passar/Ó abre alas/Que eu quero passar//Rosa de Ouro/É que vai ganhar/Rosa de Ouro/É que vai ganhar.” Tinha 52 anos e vivia romance com rapaz de 16, outro João Batista, de sobrenome Lage. Com isso voltou a escandalizar a sociedade carioca, o que a levou a mudar-se para Portugal, onde viveu algum tempo. Morreu no Rio, aos 87 anos, às vésperas do carnaval de 1935, ao lado do seu segundo João.

Mais de seis décadas depois de sua morte, sua vida, luta e coragem inspiraram roteiristas e diretores de cinema. Em 1999, a Rede Globo exibiu a minissérie Chiquinha Gonzaga onde Regina Duarte interpretou a compositora. No filme Brasília 18% , Bete Mendes deu vida à protagonista. No filme O Xangô de Baker Street , baseado no livro de Jô Soares, ela foi interpretada por Malu Galli.

Chiquinha começou a abrir alas para as mulheres oprimidas como ela, às quais estava proibido desejar. Tornou-se um exemplo ao batalhar pelo que valorizava e superar os preconceitos que poderiam tê-la imobilizado. Foi uma rosa de ouro.
Para os interessados, recomendo três biografias: Chiquinha Gonzaga, uma historia de vida, de Edinha Diniz; Chiquinha Gonzaga- sofri e chorei e tive muito amor, de Dalva Lazaroni; Francisca “Chiquinha” Gonzaga, de Tatiana Ribeiro. Todas excelentes para o leitor conhecer em pormenores a difícil mas rica vida dessa mulher extraordinária, que arriscou tudo para ser feliz, coerente com seus sentimentos e fiel à música, sua maior paixão.
   

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