Futebol

Por: Roberto de Paula Barbosa

370768

Paixão nacional, o futebol e eu nunca tivemos um relacionamento firme e duradouro, motivo pelo qual já me divorciei dele há muito tempo. Não tenho um time do coração e, se acompanho alguns resultados, é mais para motejar algum amigo fanático. Quando adolescente, após as aulas de educação física, o Prof. Pedroca liberava os alunos para um jogo recreativo, que podia ser vôlei, basquete ou o futebol. Como o número de jogadores no futebol era maior, maior seria a chance de minha participação. Selecionavam-se os dois jogadores que sabidamente eram melhores e eles, alternadamente, escolhiam seus atletas. Como sempre ficava sobrante, o último a escolher insistia para que eu reforçasse o time do outro.

Não obstante, já assisti a alguns jogos relevantes e outros maçantes, levado ao acaso ou como acólito. Quando a Feiticeira subiu para a Primeira Divisão, em 04/12/1977, no Lanchão, contra o Araçatuba, eu estava lá na companhia de outros 19500 loucos torcedores. Noutra oportunidade, lá pela década de 1970, assisti ao clássico entre o Galo e a Raposa no Mineirão, sentado na arquibancada perto de uma banda, cujos acordes ensurdecedores deram trégua apenas no intervalo. Em Joinville, também por aquele decênio, fui levado a ver um jogo do Joinville Esporte Clube, em uma noite invernosa, onde o vento teimava em furar meus agasalhos para atingir o tutano de meus ossos. Também fui obrigado a ver o clássico São Paulo e Santos, no Morumbi, numa tarde de sol escaldante, cujo resultado foi um arrastado zero a zero.

Visitei alguns estádios, sem jogo, apenas por curiosidade e oportunidade. O Beira-Rio, em Porto Alegre; a arena Fonte Nova, a velha, antes de sua implosão; Serra Dourada, em Goiânia; Pacaembu, em São Paulo; Vila Belmiro, em Santos; La Bombonera, em Buenos Aires e Santiago Bernabéu, em Madrid.

Em agosto de 1969, meu cunhado recém-casado em Goiânia, visitou-me em São Paulo, onde residia, e sugeriu irmos dar um passeio ao Rio de Janeiro, já que ele e nem a esposa conheciam a Cidade Maravilhosa. Eu e minha jovem consorte também não a conhecíamos, exceto, talvez, por alguma passagem rápida. Fomos de ônibus e lá entrei em contato com um colega que havia trabalhado comigo no Paraná e que seria nosso cicerone. Ele nos guiou pelos diversos pontos turísticos e, em um sábado, levou-nos a uma das mais belas e badaladas praias, onde almoçaríamos em um daqueles quiosques que fervilham na orla. Acontece que nós, caipiras paulistas e goianos, estávamos trajados para passear no centro de São Paulo, de sapatos, meias, calças e camisas e as mulheres com seus vestidinhos típicos da época. Adentramos o restaurante e o prato do dia era a famosa Feijoada Carioca que, embora a canícula do meio dia estivesse no auge, resolvemos encarar essa etapa de nossa viagem. Nosso cicerone, embora carioca, não tinha aquela malandragem típica do povo fluminense, pois era apenas mais um bancário; como não conhecíamos a afamada feijoada, pedimos para nos servir uma para cada e o garçom, mais malandro que o Zé Carioca e com a mesma personalidade de Macunaíma – personagem e herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade – mais do que depressa, providenciou as cinco cumbucas e todos os complementos inerentes ao acepipe. Nem é preciso mencionar que os cinco nos fartamos com apenas uma cumbuca e, talvez, um pouco de outra, mas a conta foi paga pelo total. Se esse garçom estiver vivo, deve estar rindo até hoje dos mocorongos que ele serviu.

Mas a história não termina aqui.

No dia seguinte, domingo, dia 31/08/1969, nosso cicerone conseguiu arranjar uma desculpa e, malandramente, caiu fora. Aí meu cunhado, chegado a um futebol, teve a brilhante ideia de assistir a um jogo no Maracanã, juntamente com nossas jovens esposas, onde a Seleção Canarinho jogaria a última partida eliminatória para a Copa do Mundo de 1970 contra o Paraguai. Após enfrentar uma fila monstruosa, sob um sol ardente, conseguimos transpor os túneis de acesso à arquibancada, onde colocávamos os pés no chão a cada três ou quatro metros, prensados que estávamos como bucha de canhão e onde não havia retorno. Quando explodimos na boca do túnel, passando por cima de dezenas de torcedores começamos a procurar um lugar para sentar na arquibancada, mas não havia um espaço sequer para depositarmos os nossos assentos – e olhe que naquela época eles eram bem menores. Com muito jeito, meu cunhado e sua esposa, a uma distância de uns cem metros, conseguiram se espremer e sentaram-se. Eu e minha mulher, com o beneplácito dos que estavam nos degraus acima e abaixo, permitiram que nos sentássemos um de costa para o outro, atravessados aos pés dos de cima. Enquanto aguardávamos o início da peleja, divertindo-nos com os gritos, piadas, gozações e arremessos de copinhos de chá e buchas de laranja, um camarada, um degrau abaixo de nós, por acaso olhou para cima e, coincidentemente, flagrou um arremesso de bucha de laranja em sua direção. Sua reação foi instantânea e a uma distância de cerca de dez degraus, ameaçou o remetente da bucha com a partição de sua cara. Acontece que, imagino eu, o arremessador fazia parte da favela do Morro da Providência e todos os moradores estavam lá em cima; assim uma cascata de buchas desabou sobre o incauto intimidador e em todos os que estavam à sua volta. Nós enfiamos a cabeça entre os joelhos, protegendo-a com as mãos e esperamos a avalanche passar, após alguns minutos de intenso tiroteio. Quando os ânimos amainaram, estávamos com uma montanha de buchas e copos de chá (sabe-se lá se era chá mesmo) ao nosso redor.

O jogo começou e mal víamos o campo. Quando todos se levantavam aí também nos levantávamos para colocar os ossos e os músculos no lugar, mas logo voltávamos às nossas almofadas de cimento. Quando, quase ao final do segundo tempo, Pelé marcara o gol que nos levou à Copa, o Maracanã tremia e nós aliviávamos as dores do corpo, ficando de pé e pulando como os demais torcedores.

Apenas a título de informação, o Maracanã recebeu 183.341 pagantes (aí nós estamos insertos), o maior público registrado na história daquele estádio.

Imaginem se realmente eu gostasse de futebol! 

 

Na foto foto: Em pé: Carlos Alberto, Félix, Djalma Dias, Joel Camargo, Wilson Piazza e Rildo;Agachados: Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Edu Américo. Técnico: João Saldanha

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras