De olho no Oscar

Por: Sônia Machiavelli

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Neste domingo, 4 de março, mais uma premiação do Oscar pode motivar o telespectador brasileiro a se  manter acordado madrugada adentro para conferir quem vai levar a estatueta. Os que amam  a “sétima arte” geralmente  já assistiram, nesta altura, aos filmes  indicados e torcem por aqueles de sua eleição. Nunca consigo ver todos, mas  gosto de acompanhar o evento. E dessa vez, tendo visto cinco deles, e lido comentários sobre os outros, faço minha aposta  naqueles  que, acredito,  devem levar o maior número de prêmios: The Post, O destino de uma nação, Dunkirk, Três anúncios para um crime e A Forma da Água
 
The Post – a guerra secreta, dirigido por Steven Spielberg, é sobre  jornalismo, jornalistas, redações, editores, dever de informar, coragem, ética, muito trabalho diuturno. Tem Tom Hanks ( o editor Ben Bradlee)  e Meryl  Streep (a proprietária do jornal The Post, Katherine Graham) como protagonistas de uma história baseada em fatos reais: a divulgação de documentos que revelaram a verdadeira política do governo Nixon para a Guerra do Vietnam. Do filme, de construção sólida e desempenhos  excelentes, restou-me uma frase indelével: “O jornalismo deve servir aos governados e não aos governantes”. 

O destino de uma nação traz mais uma vez para a tela a Segunda Guerra e a figura icônica de Winston Churchill, o político que permanece vivo na memória  dos ingleses pela coragem, inteligência, cultura  e sobretudo oratória capaz de unir o povo britânico e manter os ânimos elevados nos piores momentos. A história dirigida por Joe Vright  foca um destes,  entre  a posse de Churchill como primeiro ministro e a retirada de Dunquerque, ação bélica   (chamada Operação Dínamo) que salvou 300 mil soldados (embora ao preço da vida de 3mil...). É quase impossível  Gary  Oldman não levar o prêmio de melhor ator; sua performance como Churchill é de impressionar, do timbre de voz ao jeito de andar; do modo de segurar o charuto ao olhar que oscila entre  arrogante e  destemido. 
 
Curiosamente, Dunkirk, produzido antes de O destino de uma nação, o complementa com perfeição, pois detalha a Operação Dínamo. Sob direção de Christopher Nolan, concorre em oito categorias e teve o trailer mais assistido no You Tube, entre todos os indicados a melhor filme. São realmente espetaculares as cenas no céu ( o veterano piloto Farrier Hardy precisa destruir um avião inimigo);  na praia (o jovem soldado Tommy quer escapar com vida daquele inferno); no mar (velho  inglês une-se a centenas de compatriotas que possuem  barcos de passeio e ajuda  a resgatar soldados britânicos no litoral francês). Um épico. 
 
Três anúncios ...  conta a história de Mildred Hayes (Francis MacDormand, favoritíssima ao prêmio de melhor atriz)), cuja filha adolescente foi estuprada e assassinada numa daquelas cidadezinhas perdidas do interior dos Estados Unidos. Decorridos alguns meses sem que o criminoso tenha sido encontrado, ela aluga três outdoors onde pede  justiça ao xerife local. A narrativa se desenvolve em torno da reação da pequena comunidade aos anúncios. O final anti-clímax, se a um tempo frustra o espectador, por outro deixa no ar um gosto amargo de realidade que leva à reflexão.  Um filme vale muitas vezes pelo incômodo que provoca. Este, além das qualidades cinematográficas, conta a seu favor com a mobilização norte-americana contra crimes sexuais.  
 
Quanto  A Forma da Água,  com o maior número (13) de indicações, o enredo se desenrola em algum ano da década de 60, período agudo da Guerra Fria. Uma  faxineira  de laboratório experimental  do governo faz  descoberta durante seu trabalho. Há uma enorme criatura mantida em segredo num tanque e ela foi  trazida das profundezas  de um rio da  América do Sul pelo agente Strickland (Michael Shannon). Elisa Espósito (Sally Hawkins), a empregada muda mas não surda, apaixona-se pelo anfíbio (Dough Jones), a quem passa  a alimentar com ovos cozidos, música e gestos eloquentes. Pronto. Está formado o par, que poderia- como não?- ser comparado àquele composto por Bela e Fera, não fossem os estereótipos de beleza impostos pelo próprio cinema, pela indústria da moda e dos cosméticos, pela mídia etc.  Então, a Bela não é uma jovem e linda  virgem; a Fera não necessita de  beijo redentor para se transformar em príncipe; o Vilão vai além da destruição dos laços amorosos recém-criados.   Mas nada é tratado de forma  simplis
ta, aleatória ou avulsa nesta  fábula sobre  amor, diferenças, aparências que se contrapõem  à essência.  Tudo faz parte de uma sintaxe narrativo-visual, o que garante fluidez e acúmulo de sentidos  a  todo instante. O diretor Guillermo del  Toro  mostra o seu melhor  e nos oferece  obra lapidada onde  sentimentos, mobilidade, preconceitos, aceitação e mistério se entrelaçam o tempo todo. 
 
Verdade, poder, conflito, justiça e intolerância são, respectivamente, temas dos cinco filmes destacados e questões atemporais que dizem respeito à nossa complexa humanidade. Sobre eles devemos estar sempre muito atentos. A arte pode ajudar nessa empreitada. 
 

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