gracias! gracias! gracias!

Por: Bruno Cunha

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a gente bem sabe, criança é um bicho danado de sabido. o joão, que é meu sobrinho, tem dois anos e já sabe identificar com espantosa precisão todos os carros da família. de quem é aquele carro, joão? do papai. e aquele outro? da mamãe. e esse aqui? da tetia. dia desses ele foi ao supermercado com a vó lane e viu um carro de modelo e cor idênticos ao meu: tio buno, vovó. o carro do tio buno. como pode uma criança de dois anos saber tanto assim? até outro dia eu não sabia a diferença entre renault e peugeot. e digo mais, ainda hoje preciso de um tempo pra diferenciar hyundai de honda - o logotipo, é claro. e a criança de dois anos que mal saiu das fraldas ao ver um fusca do outro lado da rua, grita desesperado: fucas, tio buno, fucas! a alice, minha prima, tem um ano e ainda não fala, mas é só alguém perguntar: alice, como é que o papai fica bravo? que aquela doce e delicada criança se transforma em alguém cuja fúria se mostra claramente através de gestos, dentes cerrados e olhos esbugalhados. a fisionomia carrancuda logo se vai, dando espaço a um riso que é só dela – como se soubesse que acabara de fazer algo verdadeiramente extraordinário. a alice, como disse, tem apenas um ano e já dá piscadinha, manda beijo, fala tchau, chama as pessoas de “ou” e dá o “upa” mais apertado de todos. e o mais gostoso também. criança é um barato. digo isso e logo me arrependo, não pelo significado, e sim pelo termo empregado, nenhuma criança usaria o termo “é um barato” pra nada e isso já faz dela uma pessoa muito melhor que eu. bom, ia dizendo. criança é um barato. outro dia, andando pelos corredores do trabalho, presenciei o seguinte: três crianças brincavam num canto; montavam cuidadosamente uma estrutura para os carrinhos; tinha túnel, ruas, pontes; cada uma delas expunha convictas sugestões sobre a mega construção que ali acontecia. fui para o outro lado. voltei. e a obra seguia a todo vapor. e sendo aquele que conta histórias, peço desculpas se trago a informação que segue pela metade, faltando partes, mas foi assim que ela me apareceu, de supetão. um dos meninos, e eu não sei o porquê, disse: eu sei falar francês – e então completou: gracias! gracias! gracias!

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