Audição às cegas

Por: Ligia Freitas

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Ela entrou em casa com o filho pelos braços e fitou-o com um forte olhar, mostrando um largo sorriso. 
 
Enquanto atendia o celular, abria a porta da casa e colocava a criança no chão. 
 
_Vá meu filho, lave as mãos e sente-se para a lição.
 
No telefone era o chefe, que simplesmente invadiu aquela sala de jantar, sem pedir licença para entrar.
 
A voz aumentava e os ouvidos silenciavam, a conversa acirrada partia para o fundo da sala, onde não havia conhecidos.
 
O marido chega do trabalho, ela dá de ombros, faz que está chateada, desliga o telefonema em gritos.
 
Ele a olha diferente, como quem quer dizer algo intuitivamente. Ela desvia o olhar assustado e vê a lista do mercado, começa a escrever feito boi corrido.
 
E o cérebro continua: fraldas, remédio e leite na farmácia, carne no açougue, pão na padaria, contas de luz e telefone, costureira, jantar do meu filho. 
 
_Meu filho! Oh, meu Filho, você está aí sentado? Eu havia me esquecido. Vamos lá, vou ajudá-lo com a lição. Hoje é dia de aprender os numerais! Então conte de um a dez e escreva 12345678910. 
 
O menino toma nota e escreve perfeitamente.
 
 _Parabéns, viva! Diz a mãe. 
 
O menino a olha lentamente e rasga aquele largo sorriso: 
 
_Vá, mamãe, agora é a sua vez. Feche os olhos e conte até dez, respirar é preciso! 
 
Sábio é aquele que aprende ou aquele que ensina? Sábio é aquele que aprende enquanto ensina. E se a sabedoria vem do ventre e vem da alma, deixemos o saber dos livros para a escola e fiquemos com o dom de abrir nossos ouvidos.

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