Com amor, Van Gogh

Por: Sônia Machiavelli

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Indicado ao Oscar 2018 na categoria Melhor Animação, Com amor, Van Gogh (disponível no canal Netflix ) não levou prêmio. Mesmo assim já se inscreve na história do cinema pelo ineditismo de sua concepção e pela custosa concretização. Os diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman fizeram da obra uma declaração de amor ao gênio holandês que pegou um pincel pela primeira vez aos 28 anos, pintou durante nove e então morreu de forma misteriosa e trágica. Legou à humanidade mais de 300 telas e tem seu nome incluído no rol dos que transformaram a pintura através de um novo olhar: “Muitos pintores pintam o que veem; eu vejo o que pinto”, explicou Van Gogh.   
 
O trabalho da polonesa e do inglês  levou seis anos para ser finalizado e  exigiu 125 pintores de diferentes nacionalidades. Replicando o artista holandês, pintaram a óleo cada um dos 65 mil quadros do filme. Tão logo estreou em meados do ano passado, o filme chamou a atenção para a técnica empregada, pois se ela representou meio para contar a história do artista que anuncia o pós-impressionismo, também propiciou viagem sensorial pelo universo do pintor atormentado. Reconhecíveis na feição, os atores (Douglas Booth, Saoirse Ronan, Aidan Turner e outros ) foram  inseridos nas telas que o público já aprendeu a admirar (Noite Estrelada, O Retrato do Dr. Gachet,  Ramo de amendoeira, Igreja em Auvers, Iris de Saint-Rémy, Trigal com corvos, Oliveiras com céu amarelo e sol, Autorretrato com orelha cortada), mas saem delas e se movimentam.
 
Vincent Van Gogh (Zunderl-1853/Auvers-sur-Oise-1890) foi mais um entre tantos artistas a não ter reconhecida em vida a genialidade. Seu comportamento instável e errático  fez com que fosse diagnosticado como desequilibrado e internado algumas vezes, ainda antes de começar a pintar. Tal existência acidentada, de relacionamentos catastróficos, chamou a atenção de diretores  que a levaram para as telas. Vincent Minelli fez Sede de Viver, em 1956, chamando para o papel Kirk Douglas. Robert Altman assinou em 1990  Vincent &Theo, focando na relação profunda dos irmãos – Theo morreu deprimido, seis meses depois de Van Gogh.  Maurice Pialat abraçou uma versão ambiciosa com Van Gogh, em 1991. Os diretores de Com amor, Van Gogh parecem ter se inspirado na biografia escrita por Steven Naifeh e Gregory Smith, uma das mais extensas e completas, onde em mil páginas os escritores seguem o pintor do nascimento à morte, vasculhando sua vida solitária, marcada por infância privada de cor e de afetos, o que o teria levado, como forma transgressiva, a fixar nas telas um mundo colorido, vibrante e emocionado, marcado pelo movimento. Acrescentou assim à sua realidade, a verdade  atemporal da arte.
 
 Com amor, Van Gogh  tem início um ano após a morte do pintor. Armand Roulin, filho do carteiro Joseph Roulin , de quem Van Gogh se tornou grande amigo ao se mudar para Arles, no sul da França, é quem conduz a narrativa. Os retratos que o pintor fez de Joseph e de toda a família Roulin estão entre os mais conhecidos de sua obra e são facilmente identificados pelo espectador  acostumado às mídias e aos museus. No filme, Armand é visto usando o mesmo figurino (composto por jaqueta amarela e chapéu) do retratado por Van Gogh, e isso vai se repetir com diversos outros personagens e cenários contemplados pelo artista. O resultado é fascinante e deixa em segundo plano as deficiências do roteiro linear que poderia ser mais instigante, e a fragilidade do enredo, que por um triz escapa do entediante. Tendo sido incumbido pelo pai de entregar uma carta deixada por Van Gogh ao irmão Theo, Armand descobre que ambos morreram.
 
A partir daí se transforma numa espécie de detetive, indo atrás das pessoas que conviveram com o artista em seus últimos dias. Cada diálogo deriva em retrospecto no qual a trajetória de Van Gogh é relembrada. Isso até o momento em que o filho do carteiro decide investigar o que teria levado o pintor a se matar num momento no qual todas as testemunhas de seus últimos tempos de vida afirmam que ele se encontrava tranquilo. Todas, à exceção do Dr.Gachet, sob cujos cuidados Van Gogh se encontrava.
 
Paul Gachet (1828-1909), além de médico e pintor frustrado, foi modelo para Van Gogh em duas telas (uma delas vendida no ano passado por 75 milhões de dólares mais comissões). Ele se torna suspeito aos olhos de Armand. Como são suspeitos alguns rapazes com quem o pintor teria brigado dias antes de entrar sangrando no hotel humilde onde estava morando em Auvers. Essa desconfiança reflete a dos autores da biografia citada, Naifeh e Smith, que estranham o fato de alguém atirar na barriga quando pretende de fato se matar; questionam o sumiço da arma, nunca encontrada; e se deixam sugestionar por  frase de Van Gogh em carta ao irmão Theo, onde diz que o médico que o tratava há algumas semanas, “é mais doente que eu... acho, ou digamos, quase tão doente...”.  O final do filme permanece em aberto, sem respostas conclusivas, apenas com sinalizações para a reflexão. 
 
Se a biografia de um  artista não explica nem justifica sua obra, é certo que ambas se comunicam da alguma forma, disse o filósofo francês Merleau-Ponty. Em  se tratando de Van Gogh e sua vida complicada por muitos fatores é possível estabelecer relação estreita entre conjunto da obra e  modo de existir. Mas o impacto do filme não reside na história biográfica, e sim na  sugestão de beleza que só a arte é capaz de conferir ao espírito humano. Arte como bem inalienável, precioso, repleto de camadas de significação que seguem desafiando o olhar do espectador através dos tempos.   

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