O tombo que eu levei

Por: Sônia Machiavelli

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Na segunda-feira levei um tombaço.

Uma hora antes, havia olhado para o azul sem jaça do céu francano nas manhãs de abril e pensado em Nietzche por causa da esplêndida luz que quase cegava. Minutos antes, até afastara para longe o pessimismo que costuma me acompanhar quando entrevejo os lados mais nebulosos da condição humana. Segundos antes, só pensamentos altaneiros endossavam uma apreciação mais apetecível da existência; começava inclusive a achar divertido praticar uma atividade física como a caminhada. Foi quando me surpreendeu o anticlímax.

Um pé movimentou-se à frente; o outro não acompanhou a ordem do cérebro que num átimo percebeu o desnível no solo. As pernas se embaralharam, fui ao chão da calçada da avenida Dr. Alonso, naquele trecho do Agabê. Bati a boca, o queixo, o braço direito, os dois joelhos, as mãos e diversos outros pontos deste corpo vulnerável. Fiquei literalmente estatelada contra a aspereza das pedras, divisando a armação de meus óculos atirada a um metro, lentes saltadas e estilhaçadas; a bolsa aberta do outro lado, a uma distância que me pareceu naquele momento intransponível; umas plantinhas brotadas entre rachaduras e que pareciam me fazer um aceno; cascas de laranja ressecadas que serviam de passarela a uma joaninha e a uma formiga que passeavam lado a lado; e os quarteirões que eu acreditara até então percorrer para em seguida pegar o carro e ir ao encontro de meus alunos na Academia de Artes, próximo compromisso.

É assustador e ao mesmo tempo curioso ficar caída no chão por poucos mas demorados minutos, vendo os carros trafegando em alta velocidade e nenhum humano transitando pela calçada. O sentimento é de total solidão, de fragilidade máxima, de realidade urgente a gritar: olhe aí o que somos nós, seres metidos a besta! Queria me erguer mas não conseguia, precisava de um ponto para me firmar. Sei lá por qual razão me veio à mente aquela frase de Arquimedes: ”Deem-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”. Eu precisava de apoio, seja lá como fosse, para sair do chão, para me mexer, para de novo ver o entorno a partir da posição vertical. Então apareceu um anjo chamado Luís. Tendo ouvido da torre onde estava a trabalho o “barulhão seco”, como o descreveu, foi à rua e deparou com esta que aqui conta sua desventura . Estendeu a mão e me sustentou até que eu conseguisse ficar de pé. Senti o gosto de sangue na boca e pelo olhar dele vi que a coisa tinha sido feia. Seu Luís me ofereceu o braço, me conduziu para dentro do estacionamento, disse que eu poderia usar o toalete para lavar o ferimento e me recompor. Ao me enxergar na imagem que o espelho devolvia, previ os hematomas que nas próximas horas iriam desenhar do lado direito do meu rosto manchas muito feias. Era o de menos.

Tive muita sorte, segundo disseram os médicos que me atenderam na Unimed, aonde só fui bem depois, levada por irmã e cunhado, quando a dor no braço direito apertou de tal jeito que se tornou impossível suportar sem analgésicos. Fiz radiografia, que confirmou ausência de fratura mas acusou presença de luxações. Desde então estou sendo testada nos limites exíguos da minha paciência e tolerância. Tenho de escovar dentes, pentear cabelos, mover maçanetas, colocar chaves em fechadura, segurar xícara de café ou copo de água, digitar, usar garfo e levar comida à boca ... com a mão esquerda, que sempre usei muito mal durante toda a vida. Tomar banho, trocar de roupa, arrumar interior de bolsa, fazer movimentos para trás, mudar a marcha do carro são ações que implicam em dificuldade e dor até este momento em que escrevo.

Mas não questiono mais o estado da calçada nem o tipo de sapato que usava, argumentos que invoquei e depois foram também aventados pelos que me cercam. Caí em mim. Lembrei-me de uma frase do apóstolo Paulo em carta que escreveu aos cristãos de Tessalônica, aquela linda cidade da Grécia que tem este nome em homenagem à irmã de Alexandre, o Grande: “Em tudo dai graças”. Estou dando graças porque poderia ter estraçalhado o maxilar, quebrado mão ou braço, deslocado a clavícula, fraturado fêmur, batido a cabeça e destrambelhado de vez: senti que ia cair e instintivamente preferi oferecer a cara em lugar do crânio. Estou dando graças porque fui relembrada de que quando tudo funciona bem, nos esquecemos do milagre que é a manutenção da vida e deixamos de pensar que qualquer mínima parte lesada inviabiliza muitas de nossas ações cotidianas. Estou dando graças porque passei a valorizar mais do que nunca o perfeito funcionamento dessa engrenagem magnífica que é o corpo, estrutura harmoniosa na qual moramos por tempo ínfimo no Universo onde nada é por acaso e tudo conflui no caminho da evolução.

Estou dando graças porque continuo viva e descobri que até prosaicas quedas podem nos levar a algum voo se nos descolamos do chão das platitudes.

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